
Sabrina Noivas 76 - Wedding Daze

Sempre dama de honra, nunca noiva! Ou, no caso de Brianna Fairchild, seria mais apropriado dizer sempre uma organizadora de casamentos. Pois a adorvel empresaria
e comerciante passava seus dias em meio a vestidos de noivas, buqus e tudo que se referia a casamentos...de outra mulheres! Foi quando apareceu Spencer Lockhart.
E, embora o declarado celibatrio se considerasse imune  tentao de mudar de estado civil, Brianna decidiu test-lo. Ela nunca recuava diante de um desafio, ou
do sonho de que um dia, precisaria de seus prprios servios...


Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998. Publicao original: 1998. Gnero: Romance histrico contemporneo
 A VENDA

LOJA PARA NOIVAS

Loja para noivas, com servio completo: vestidos de noiva prontos
e sob medida, grinaldas, sapatos e acessrios, convites, decorao e som.
Inclui: apartamento na sobreloja, ideal para pessoa solteira. Motivo da venda: atual proprietria prestes a tornar-se a principal cliente da loja!



CAPITULO I

Spencer Lockhart deixou a maleta no cho, em frente ao balco de informaes que havia na entrada. Tentava manter uma expresso neutra enquanto observava a decorao
inusitada da sala de espera.
Do cho ao teto, o aposento estava inteiramente decorado em tons de rosa-choque, uma cor que ele sempre associou a garotas desagradveis e a senhoras de meia-idade
muito empertigadas.
Colocou as mos nos bolsos, involuntariamente fazendo uma careta ao ouvir os risos diversos decibis acima do que mandava a boa educao. A julgar pelos olhares 
furtivos e gestos em sua direo, ele havia despertado interesse em uma dzia ou mais de damas de honra.
"Oh, sim!", pensou desconsolado. Kelly lhe devia muito por coloc-lo em tal situao.
Deu uma olhada no relgio de pulso e franziu a testa. Duas e quarenta e seis. O compromisso fora agendado para as duas horas.
O trnsito estivera ainda pior do que havia previsto. Para agravar, acabou se perdendo e viu-se dando voltas e mais voltas nas ruas que circundavam o parque Inman 
na tentativa de encontrar o endereo.
Passou pelo balco e deu alguns passos hall adentro.
 Ol?!
No houve resposta. Nada alm de sua prpria voz reverberando atravs da passagem estreita e alguma conversa abafada  distncia.
Perturbado, voltou para perto da mesa da recepcionista, observando algumas garotas que conversavam to entusiasmadas, que pareciam no perceb-lo. Pareciam-se com 
flores assanhadas pelo vento.
Indeciso quanto  melhor atitude a ser tomada, Spencer acomodou-se em uma poltrona acolchoada.
        Oh! Sinto muito! Algum j veio atend-lo?
Atnito, Spencer desviou os olhos da balbrdia e olhou em direo  voz feminina suave e delicada. Uma mulher alta, bem vestida e dona de lindos olhos castanho-esverdea-dos 
e um sorriso caloroso estava em p  sua frente, segurando alguns papis de encontro ao peito. A atmosfera melhorara consideravelmente.
        Ainda no. Na verdade, tinha um compromisso marcado para as duas horas, mas fiquei preso no trnsito. Meu nome  Lockhart. Pensei que talvez conseguisse 
me atender mesmo assim.
        Oh... no tenho certeza...
A saia levemente justa acompanhou os movimentos sinuosos dos quadris femininos. Spencer observou, maravilhado, a mulher aproximar-se da escrivaninha. Viu-a passar 
o dedo, com unha perfeitamente esmaltada por cada linha do caderno de compromissos e ento balanar a cabea em sinal negativo.
Quando levantou os olhos, Spencer calmamente percebeu como ela era linda. Excepcionalmente bela.
        Na verdade, devo lhe dizer que minha agenda est completamente tomada durante todo o restante do dia   disse suspirando.  Para quando poderemos remarcar 
o compromisso?
Nesse exato instante, toda a beleza pareceu se esvair.
        Remarcar?  repetiu, rindo.  No mesmo! Preciso cuidar disso hoje.
Fitou-a com o que imaginava ser sua expresso mais intimidadora. O espao entre as belas sobrancelhas diminuiu quase imperceptivelmente.
        Eu realmente sinto muito, sr. Lockhart...  Ela olhou no caderno de compromissos para verificar o nome.  Sim plesmente no ser possvel.
        Minha querida, acho que no entendeu com quem est falando  murmurou, levantando o queixo.  Por favor, ponha-me em contato com o dono, o gerente ou qualquer 
outra pessoa responsvel pelo estabelecimento, para que possamos ir adiante com o combinado.
Observou a palidez que se instaurou no rosto delicado. Ela arregalou os olhos apenas por um momento e ento pareceu ficar levemente aborrecida.
        Sinto no poder fazer isso.
        E por que no, posso lhe perguntar?
A moa aprumou-se. Devido aos saltos altos, ficava quase da mesma altura que ele. Estendeu-lhe a mo, um sorriso estonteante brincando nos lbios bem delineados 
pelo plido batom.
        Sou Brianna Fairchild, dona e gerente do estabelecimento, sr. Lockhart. Seu compromisso era comigo. E agora, como eu estava dizendo... para quando poderemos 
remarcar a reunio?
Voltou a inclinar-se sobre o livro, uma caneta na mo. Spencer recusou-se permitir que a graa calculada daqueles movimentos rompessem sua guarda.
        Srta. Fairchild, talvez eu no tenha me expressado bem. Tenho uma agenda muito atribulada e no vou con
seguir alterar nenhum dos meus compromissos. Sou um homem de negcios, portanto, no posso perder tempo.
O sorriso sumiu dos lbios de Brianna e ela limitou-se a passar as mos levemente sobre a superfcie polida da mesa. No instante em que Spencer percebeu o brilho 
naqueles olhos, notou que havia cometido um grande erro.
Nunca acue o adversrio.
        Sr. Lockhart, por favor, compreenda.  Sua voz era baixa e controlada, mas a raiva era indisfarvel.  Assim como eu compreendo sua situao, deve perceber 
que tambm tenho uma empresa para tocar. Eu ainda no aprendi fazer mgica. Tenho compromissos durante todo o restante do dia, conforme lhe informei.
Fez uma breve pausa para avaliar o efeito de suas palavras e em seguida prosseguiu:
        Mesmo porque no seria justo deixar esperando uma cliente que chegou no horrio. Seria mais prtico se remarcssemos outra reunio para conversarmos sobre 
seu casamento.
        Por Deus, no! No em milhes e milhes de anos  ele disse, enftico.  O casamento  de minha irm.
        Oh!
Observou-a morder o lbio inferior. Notou a frieza estampada nos olhos castanho-esverdeados que o desafiavam.
        Bem, ento, sr. Lockhart, podemos agendar?
        Um momento.  Ele pegou o celular e certificou-se de seus compromissos.  Sexta-feira,  tarde.
        Para mim, est timo. E quando ser o casamento, sr. Lockhart?
Spencer deu de ombros.
        Oh, no sei! Em algum dia de maio.
Rindo, ela disse:
        Acho que ter de ser mais especfico do que isto.
        Por qu, pelo amor de Deus? Estamos ainda em fevereiro.
        Sim. Mas maio e junho ainda so os meses preferidos das noivas de Atlanta. Tenho certeza de que muitas marcaro os casamentos ainda esta semana. Estou com 
a agenda lotada, meus servios so muito solicitados.
        Ouvi dizer.
A luz de uma arandela iluminava diretamente os cabelos brilhantes de Brianna. Spencer flagrou-se admirando o modo como cada mecha refletia um tom particular de dourado. 
Dando-se conta do que fazia, rapidamente desviou o olhar para a prpria maleta.
        Eu telefonarei esta noite e lhe direi qual ser a data.
        Estar timo. Caso ligue depois das seis, deixe recado na secretria eletrnica. Se eu no voltar a telefonar, pode presumir que tudo est bem. Oh, s mais 
uma coisa...
Caminhou em direo a um armrio e tirou de l um bloco, tirando algumas pginas que lhe estendeu com um sorriso impessoal.
        Aqui est a descrio de todos os nossos servios e taxas correspondentes, bem como a forma de pagamento. Como pode ver, podemos lidar com o casamento de 
sua irm conforme ela desejar e nossos preos so justos. D uma olhada quando tiver oportunidade e ento conversaremos a esse respeito na sexta-feira quando nos 
encontrarmos.
        Sim... sexta-feira, s duas e meia.
Spencer deu uma olhada distrada para os papis e ento rapidamente abriu a maleta, colocou-os dentro e fechou-a em seguida. Comeou a caminhar em direo  porta. 
Depois de alguns passos, voltou-se e perguntou:
 Por acaso voc disse casamento dos Franklin?
        Estou cuidando dos preparativos para o casamento de Allison Franklin. Voc os conhece?
        Sim. Sim, conheo. Amigos de famlia.
Spencer observou Brianna Fairchild com renovado interesse. Era calma e tinha o frescor das primeiras horas das manhs de vero, embora estivesse, naquele momento, 
trabalhando com uma das famlias mais difceis de Atlanta. Realmente ficou impressionado.
Permitiu-se um aceno de cabea para ela e forou o pensamento a centrar-se na reunio com os distribuidores que teria na parte da tarde.
Brianna quase tropeou em Delia Franklin quando virou-se.
        Sra. Franklin! Eu no a vi aqui!
Colocou a mo no ombro da pequenina mulher.
        Sinto muito por t-la feito esperar.
As diversas pulseiras de ouro fizeram um barulho delicado quando a sra. Franklin apertou a mo de Brianna.
        Bobagem. Eu estive mais do que ocupada dando uma olhada naquelas amostras de convite. Estou francamente confusa diante de tantas opes.
Em tom bem mais baixo de voz, perguntou:
        Aquele que acabou de sair era por acaso Spencer Lockhart?
        Sim.
        Vejo que tem muito prestgio. Qualquer uma daria a vida para t-lo como cliente. Cuide bem dele  a sra. Franklin disse, com um sorriso maroto nos lbios.
A conversa foi interrompida por uma combinao irritante de vozes falando ao mesmo tempo.
Allison Franklin subitamente apareceu  porta, o lindo rosto mostrando como estava extasiada.
Atrasada para uma importante reunio, deixou-se vencer pelo cansao depois de ter experimentado uma dzia de vestidos e no ter se decidido por nem um deles. Sempre 
solcita, Brianna foi ao seu encontro, para ajud-la com palpites e sugestes. Mas em vo. A moa estava quase desistindo de comprar um vestido, quando Brianna 
lembrou-se de que havia uma dzia ou mais de vestidos que trouxera para o escritrio, alguns que ela mesma desenhara e que serviriam para determinados tipos de noivas... 
com especficas contas bancrias. Suspeitava que Allison Franklin fosse uma delas.
Apressou-se em direo aos vestidos... Sim. Era aquele mesmo! Tirou-o do armrio, removeu o plstico que o protegia e voltou pra a sala de provas. Como um toureiro 
colocando a capa diante de um touro, Brianna segurou a bainha do vestido e deu uma volta para mostr-lo a Allison.
Seu palpite fora correto.
        Oh, meu Deus! Mas onde estava este vestido?  indagou Allison agitando as mos e arregalando os olhos embasbacada.
Aproximou-se da me, gesticulando com euforia.
        Tire-me esta coisa do corpo, mame! Tenho de experimentar aquele vestido agora!
Finalmente livre, Allison aproximou-se do recente objeto de sua admirao. Seu olhar permaneceu no vestido quando Brianna removeu o tafet creme e incentivou-a:
        Vamos l, Allison, ponha os braos para cima.
A moa obedeceu como uma garotinha comportada. Ajudou-a a vestir-se, a saia farfalhando conforme era ajeitada.
Brianna fez com que toda a saia ficasse a um lado s e ficou atrs de Allison, sem esforo fechando a longa linha de botes forrados que comeavam no pescoo e iam 
at a regio dos quadris.
A noiva comeou a tremer.
        Oh, srta. Fairchild, este  o vestido de noiva mais lindo do mundo!
        Tambm  o mais caro  observou a sra. Franklin ao lado da filha, segurando na mo a etiqueta de preo que pendia do vestido.
Allison fitou a me, ento a etiqueta e depois voltou-se para o espelho dando de ombros.
        Ns podemos pagar, mame  Allison murmurou de queixo erguido.  E papai sempre disse que eu poderia ter tudo que quisesse. E eu quero este vestido.
Dois pares de olhos se encontraram no espelho por um longo momento e ento a sra. Franklin simplesmente as-sentiu;
        Otimo! Agora vamos tirar o vestido e ento marcaremos mais um encontro para escolhermos um vu adequado.
Brianna ajudou Allison a se despir, cuidadosamente arrumando o vestido enquanto a noiva colocava as prprias roupas. Depois, pegou a ficha de Allison para fazer 
algumas anotaes.
Assim que a jovem deixou o vestirio, Brianna sentiu um toque leve em seu ombro. Ergueu o olhar para encontrar o de Delia Franklin.
        Obrigada por deixar minha filha feliz. Ela ser a noiva mais linda de Atlanta, no  mesmo? Os convidados falaro a respeito daquele vestido durante anos.
Brianna voltou-se para a sala de espera assim que se despediu da famlia Franklin. E l estavam a vendedora Madge e sua assistente Zo.
        Vamos l, sua prancheta estpida! Sei que voc est aqui em algum lugar! - Foi a exclamao irritada da secretria, que s depois notou a presena de 
Brianna.
Enquanto procurava o objeto.Zo continuou a conversar sobre os acontecimentos do dia at que o telefone tocou.
        Um momento, por favor. Verei se ela ainda est por aqui.  Zo tapou o fone e falou:  Spencer Lockhart?
        Oh!
Com um gesto lacnico, Brianna pegou o fone. Zo permaneceu encarando-a, os braos cruzados no peito.
        Sim, sr. Lockhart?
        Fico feliz que tenha atendido, srta. Fairchild. Consegui a data para voc.
        Oh, sim...
Fez um gesto em mmica para Zoe a fim de que lhe desse seu livro pessoal de anotaes.
        E agora diga-me, quando  o casamento?
        Dia vinte e trs de maio. Um sbado.
Brianna prendeu a respirao.
        No posso acreditar. Durante as trs semanas anteriores e posteriores ao dia vinte e trs j foram feitas reservas exceto neste dia especfico, ainda est 
vago.
        Otimo  foi a resposta inexpressiva do outro lado da linha.  Coloque-nos neste dia. Reserve o dia todo.
        Oh, mas eu normalmente fao dois casamentos aos sbados...
        Sim, sim, eu sei... Li sua lista de preos e tenho certeza de que cobrar uma taxa pesada para ficar o dia todo  nossa disposio. Se no for problema 
para voc, posso lhe assegurar que para mim no ser.
Brianna fez uma careta para Zo enquanto respondia com sua voz mais corts:
        E claro que no, sr. Lockhart. Absolutamente no haver problemas.
        timo! Ento nos veremos na sexta-feira.
        At l, ento  respondeu Brianna.
Ao desligar o aparelho, encontrou os olhos de Zo fit-la.
        Mal posso esperar para conhecer este homem  ela falou, enquanto arrumava algumas coisas.
        Por qu?
Zo ajeitou os cabelos de forma a poder olhar para Brianna. 
        Porque...
Deu de ombros.
        No importa.
        Zo...
Mas a garota apenas sorriu.
        Bem, eu j vou indo. Tenho duas aulas hoje.
Zo abriu a porta da frente, estremecendo ante o ar gelado que a saudou.
        Quando me formar em junho, espero ter um aumento, voc sabe. Isto se no for uma promoo.
Brianna passou as mos pelos braos devido ao frio.
 Vamos ver. Mas por favor feche a porta antes que eu congele, est bem?
Rindo, Zo fechou a porta atrs de si.
Mas que espertinha, pensou Brianna com um meio sorriso enquanto bocejava.
O silncio aps a partida da moa era devastador. O ritmo suave das batidas do relgio do outro lado da sala subitamente tornpu-se o nico som de todo o prdio.
Algumas vezes a quietude das noites a envolvia como o abrao de um velho amigo. Outras, tornava-se algo pesado a preencher o ar, como se todo o som tivesse sido 
sugado violentamente da sala.
Como seria naquela noite? Suspirando mais uma vez, decidiu que isso no importava. Estava to cansada que provavelmente estaria na cama s nove horas de qualquer 
maneira. Levantou-se e checou todas as portas. Foi para seu apartamento, onde pde relaxar. Lembrou-se da decorao duvidosa do salo e sorriu. Assim que tivesse 
tempo, acabaria com a profuso de tons rosa que ardiam sua viso.
Nesse momento tudo estava to silencioso, pensou Brianna. Ligou a televiso sem sequer importar-se em qual canal estava. Depois de trocar de roupa, foi para a cozinha 
preparar seu simples jantar: uma lasanha congelada e salada. De volta ao quarto, sentou-se no cho e iniciou sua refeio.
O que passava na televiso era um programa local de novidades. Nada de especial. Comeu uma poro da lasanha e olhou para cima... exatamente para os olhos de Spencer 
Lockhart.
Bateu o joelho contra a mesinha quando se virou em busca do controle remoto. Aumentou o volume.
L estava ele, ladeado por diversos executivos japoneses.
Por Deus, como era alto! Brianna tinha um metro e setenta e cinco. Tentou se lembrar de quando haviam estado frente a frente. Ela tivera de olhar para cima, recordou-se. 
Ento isso significava que ele devia ter cerca de um metro e oitenta ou mais...
A Lockhart & Stern havia acabado de negociar um maravilhoso acordo com um importador japons. Continuou a saborear a salada enquanto observava o rosto que aparecia 
na tela. Seria capaz de ficar ali olhando e olhando por horas a fio e ele jamais saberia.
No era um rosto feio. Na realidade, era muito bonito. O nariz era perfeitamente proporcional, o conjunto harmonioso. O queixo levemente arrebitado, dava-lhe um 
charme todo especial. Apenas havia algumas rugas no canto daqueles brilhantes olhos azuis e os cabelos castanho-escuros complementavam a aparncia devastadora.
Era um pouquinho grisalho, mas isso lhe dava um certo charme.
Curioso que no tivesse reparado nisso anteriormente. Ficou pensando qual seria sua idade. Devia estar prximo dos quarenta anos? No mais do que isso, com certeza...
Como em resposta, a cmara focou para o entrevistador que naquele momento comentava que, aos trinta e seis anos, Spencer Lockhart j assumia uma influncia indiscutvel 
no rol dos negcios internacionais.
Trinta e seis anos? Mas isso significava que era apenas trs anos mais velho do que ela...
Como a entrevista terminara, e no houve interesse em outro programa, Brianna levantou-se e foi  cozinha.
Lavou os pratos e deixou-os no escorredor, conforme fazia todas as noites. Mas naquela, especificamente, a imagem daqueles brilhantes olhos azuis no saa de sua 
mente.
Ficou em p, diante da pia, secando as mos e observando a escurido que invadia seu quintal enquanto considerava os prs e contras do novo cliente.
Sempre fora boa em analisar a personalidade das pessoas. Essa habilidade a fizera ser uma estudante excepcional de psicologia e uma mulher de negcios astuta.
Era bvio que a arrogncia e confiana que Spencer Lockhart mostrava ao mundo era apenas parte de sua personalidade. Brianna tinha quase certeza disso; afinal, 
ela mesma mantinha um lado secreto da prpria maneira de ser guardado a sete chaves.
Mas aqueles olhos azuis eram reais, e muito gentis. Muito mesmo.
Suspirando, pegou uma toalha limpa de um armrio. E ento, para sua completa surpresa, desabou em lgrimas.

CAPITULO II

Spencer apertou a mo do entrevistador e deixou o estdio de gravaes. Tirou a maquia-gem com um leno enquanto caminhava para o estacionamento. Esperava no ter 
manchado o colarinho, pois no teria tempo para mudar de roupa antes de encontrar-se com Charlotte para jantar.
O ar frio da rua foi muito bem-vindo depois de todo o calor das luzes para a filmagem.
Estacionou o carro diante do hotel onde Charlotte lhe pedira para fazer reservas para o jantar. Trocou algumas palavras com o manobrista quando lhe estendeu as chaves 
e cruzou o elegante saguo em direo  larga escadaria que conduzia ao restaurante.
Percebeu olhares, gestos de cabeas e sussurros que nada lhe importavam, mas que eram a vida de Charlotte. Esse era um dos mais finos restaurantes da cidade e ele 
no tinha queixas acerca da comida soberba e do servio impecvel. Mas de vez em quando no se importaria em jantar em algum lugar onde houvesse menos comentrios.
Acenou para Charlotte enquanto o maitre o conduzia  mesa ornada com um candelabro. Se quisesse anonimato, decididamente escolhera a namorada errada. Seria realmente 
impossvel manter uma pessoa to linda escondida dos olhares da multido.
A pele dela era clara e bem cuidada, perfeita para contrastar com os cabelos negros presos no alto da cabea. Para amplificar o efeito de sua presena, a moa vestia 
um conjunto de blusa e saia muito curta em tom avermelhado,
que fazia um contraste intenso com a decorao verde e dourada do restaurante. Brindou-o com um sorriso.
        Querido! Onde esteve?
Spencer se inclinou e delicadamente beijou-a no rosto, de imediato sentindo o perfume intenso. No reconheceu a essncia e decidiu que particularmente no gostava. 
Mas combinava com sua namorada: era sensual, um pouco etrea. Sentou-se a seu lado na pequena mas chamativa mesa.
        Sinto muito, foi o trnsito.
        Bem, no importa  ela respondeu.  Pedi uma bebida para voc. J estou na minha segunda.
Spencer franziu a testa.
        Acho melhor voc no beber tanto, querida.
Charlotte aproximou a mo dos seios, o lindo anel de brilhantes cintilando  luz das velas.
        Prometo que no beberei mais esta noite. Como foi a entrevista?  indagou, pegando o cardpio.
        Foi tudo bem.
Sabia que Charlotte no estava exatamente interessada. Quando o assunto referia-se a negcios, apenas trocavam algumas palavras corteses.
Spencer abriu o cardpio tambm, embora seus pensamentos parecessem mais determinados em centrar-se em Charlotte do que no jantar daquela noite.
Seu relacionamento j se estendia por um ano, o primeiro de alguma durao que Spencer permitira-se em um bom tempo. Na realidade, tornara-se mais um hbito do que 
qualquer outra coisa, suspeitava ele. Era algo confortvel, que nada lhe exigia.
Charlotte era bonita, inteligente e normalmente uma companhia agradvel. Spencer verdadeiramente gostava de t-la em seus braos durante os compromissos sociais 
a que era convidado. No havia queixas sobre o comportamento dela na cama tambm, as raras vezes haviam sido muito agradveis.
E quanto a Charlotte, a moa claramente apreciava a imagem de namorada de Spencer Lockhart.
Mas amor nada tinha a ver com isso, o que tornava tudo descomplicado, conforme ele apreciava. A distncia emocional que Charlotte lhe permitira manter era mais 
do que conveniente.
Feitos os pedidos, ficaram a se fitar por alguns momentos.
Spencer analisou o rosto lindo e sorridente de Charlotte e sentiu uma pontada de culpa. Talvez no acreditasse em amor romntico, mas sua namorada ainda merecia 
algo mais do que um relacionamento conveniente.
Mas, admitia, no era to indiferente assim a ela. Afinal, o namoro no teria durado tanto tempo se no se sentisse genuinamente atrado pela moa.
        Estive pensando  ele comeou , poderamos ir para Connecticut neste final de semana. 
        Mas, querido, j estava com planos de fazer compras em Nova York.
O olhar desolado e splice da noiva fizeram-no desistir de argumentar. Resolveu concordar. Quem sabe poderia satisfazer-se sozinho em outra ocasio.
Spencer pegou o garfo, sentindo-o muito pesado. Incapaz de comer, observou Charlotte espetar um pedao de tomate e o levar  boca.
Ele sorriu levemente. Por algum motivo, nesse momento sentiu-se bem melhor.
Spencer estava dez minutos adiantado. A linda moa aparentemente de origem asitica lhe pedira para sentar-se, assegurando que a srta. Fairchild estaria ali em 
breve.
E ali estava ele, sentado naquela mesma poltrona. Ao menos no havia conveno feminina alguma naquele dia.
A sala estava quente demais. O calendrio dizia que estavam no final de fevereiro, mas a temperatura do lado de fora j era de primavera. Havia aumentado sensivelmente, 
naquela manh.
Levantou-se, tirou o palet e voltou a sentar-se, arrumando-a sobre o colo.
Subitamente a srta. Fairchild apareceu, estendeu-lhe a mo, o sorriso imperscrutvel to brilhante quanto seus olhos. Usava um suter verde bem largo sobre uma saia 
que lhe ia at os ps.
Estava elegante, muito esguia. Ao redor do seu pescoo havia uma gargantilha que se mexia suavemente quando ela andava.
        Eu sei que  um pouco cedo, mas  melhor que comecemos. No faz sentido mant-lo aguardando, afinal de contas  ela falou em uma voz to suave quanto uma 
brisa.
Spencer ajeitou o palet no brao esquerdo ao levantar-se da poltrona e ento apertou-lhe a mo. Era quente e macia, e o aperto muito firme. Parecia que ele havia 
tomado um choque.
Como se tivesse notado algo estranho no comportamento dele, Brianna desviou o olhar.
        Zo, voc por favor poderia cuidar do palet do sr. Lockhart?
Virou-se ento para ele.
        Gostaria de tomar caf?
        Preto, por favor  informou para a jovem assistente que permitiu-se um breve olhar em sua direo, os lbios curvados em um sorriso.
Mas os olhos negros no diziam a mesma coisa que o sorriso. Confuso pela reao da garota, Spencer seguiu a srta. Fairchild pelo hall.
Observou-a andar. Ela no era como a maioria das mulheres cuja estatura fazia com que parecessem presunosas. Ao contrrio, movia-se com a sinuosidade de uma gata, 
a saia danando ao redor das longas pernas. Talvez fosse uma bailarina...
Entraram no escritrio.
        Eu me enganei. No  cor-de-rosa  ele murmurou.
        Voc disse alguma coisa, sr. Lockhart?
        Oh, apenas que... as cores so muito diferentes por aqui.
Com um brilho de aborrecimento no olhar, Brianna acomodou-se atrs da escrivaninha, indicando uma das confortveis poltronas do outro lado, para que ele se sentasse.
        Aquela tonalidade de rosa do salo no  a maior atrocidade que j viu?  disse ela, rindo baixinho.  No sou a responsvel por aquilo, acredite.
O riso era contagiante. Spencer sorriu enquanto se sentava.
        Bem, isso  um alvio. Acho que me lembro de minha irm ter me contado que voc herdou a empresa de uma outra pessoa ou a comprou, no tenho certeza.
        Comprei. O prdio estava incluso no acordo... Foi h mais ou menos trs anos. Antes disso, o local tinha o nome de Luella's, j que Luella Martin foi dona 
da loja por cerca de quarenta anos. O negcio era razoavelmente bem-sucedido, mas seu marido a pressionava para que se aposentasse. Queria que se mudassem para a 
Virgnia para ficarem mais prximos dos filhos e netos.
Ela subitamente parou de falar, levando a mo aos lbios.
        Sinto muito. Tenho certeza de que no est interessado em tudo isto.
        No, no, por favor, continue!  Spencer pediu.
Brianna logo notou que o pedido no era apenas uma formalidade e voltou ao assunto. Explicou que tinha dvidas quanto ao negcio, apesar de vislumbrar um futuro 
promissor se fizesse algumas alteraes no tipo de servio a ser prestado. Em pouco tempo, conclura que estava certa e obteve um sucesso quase imediato quando, 
alm dos vestidos, passou a oferecer todo e qualquer servio e auxlio s noivas e a toda a famlia.
        Tive o retorno do capital investido em seis meses ela concluiu.
Spencer percebeu que no estava omitindo a verdade.
        Parece que voc saiu-se muito bem.
Ele fez um gesto em direo ao hall, indicando o restante do salo.
        Presumo que essa... decorao charmosa tenha sido ideia de Luella. Acertei?
        Exatamente.
        Ento por que no fez uma reforma?
        Simplesmente porque no tive tempo. Oh, a est o caf!
Nesse instante o telefone tocou. Zo atendeu, estendeu-o a Brianna e, com um suspiro, deixou o escritrio. Com um pedido de desculpas, ela atendeu a ligao. Spencer 
ficou estudando a decorao da sala, a ordem reinante, enquanto ouvia parcialmente a conversa de Brianna com a cliente.
O estilo de decorao combinava com o da sala de espera. O carpete era de um horrvel tom de malva e sobre ele havia um enorme tapete chins feito a mo. Prateleiras 
brancas ocupavam toda a parede atrs da escrivaninha e estavam repletas de revistas, potes contendo lpis e canetas, ocasionalmente uma planta ou estatueta e centenas 
de livros.
Do lado oposto, havia um pequeno porta-cabides onde estavam alojados diversos vestidos de noiva cobertos com plstico. Prximo a isso, uma manequim ostentava um 
dos modelos.
As paredes, da mesma cor branca das prateleiras, sustentavam dezenas de fotografias de vestidos de noiva em militar preciso.-
Ele bebericou do caf, pensando na conversa anterior que haviam travado acerca do negcio e na lista de preos que ela lhe dera. Pelo que poderia dizer, Brianna 
Fairchild era astuta. Assim como ele.
Dificilmente a imagem que tivera em mente de uma consultora de casamentos se assemelhava  daquela mulher.
Sorriu, apreciando o que acabava de descobrir. Discretamente a estudou, mas teve de desviar o olhar quando o telefone foi desligado.
        Pronto, j estou de volta. Puxa, esta mulher seria capaz de testar a pacincia de um santo  murmurou quase para si mesma.
Spencer apoiou o cotovelo no brao da poltrona e o queixo na mo, um meio sorriso nos lbios.
        E eu posso presumir que voc no?
Ela o fitou, espantada, como se tivesse se esquecido de que no estava sozinha. Ento riu, subindo as mangas da blusa.
        Assumo que s vezes sou assim tambm, mas por favor no fale nada a meus clientes. No gostaria de dissipar suas iluses. E agora, sr. Lockhart, vamos cuidar 
de seu assunto. Por Deus, ainda nem sei o nome de sua irm.
         Kelly.
Ele ajeitou-se melhor na cadeira, analisando-a como faria com qualquer parceiro de negcios. A exceo era que a aprovava de um modo nada comercial. Ela tinha um 
ar diferente, uma elegncia fora de moda, a contar o penteado, seu pescoo, o pequeno queixo arrebitado.
Talvez fosse esse queixo ou algumas sardas sobre o nariz e as bochechas, mas havia algo de muito delicado nela, a despeito de sua altura. Ela o fazia lembrar-se 
das atrizes glamourosas da dcada de cinquenta, mas era muito mais real. E mais acessvel tambm.
Subitamente Spencer deu-se conta do lindo par de olhos castanho-esverdeados a brilhar em sua direo.
        O endereo dela?
        Um momento. Voc tambm pode usar o endereo da famlia.
Spencer pegou um carto de sua maleta, escreveu algo no verso e lhe entregou.
Quando Brianna se inclinou para receb-lo, ele sentiu seu perfume, de um delicado aroma floral. A moa cheirava a primavera!
Ao pegar o carto na mo, Brianna notou que o endereo era de Nova York.
        O que ela faz l?  perguntou.
        Estuda na faculdade.
        Oh, tambm estudei l.
Spencer pde notar trs diplomas pendurados na parede.
        Vejo que tem boa formao. Inclusive como psicloga. Parabns!
Brianna enrubesceu e tentou mudar de assunto.
        E por que ela escolheu aquela faculdade?
Ele deu risada.
        Seu noivo  professor de uma das matrias.
        Puxa... Deve ser amor verdadeiro!
Spencer fez uma pausa.
        Sim... Tenho certeza de que eles pensam que .
Brianna notara o cinismo atrs das palavras de seu cliente mas, aconselhou-se, as opinies de Spencer Lockhart a respeito do amor no eram de sua conta.
        Kelly j decidiu onde quer que seja a recepo? Pode ser difcil a esta data conseguir os lugares mais prestigiados.
        Oh... Isto  uma coisa que no nos dar problemas. Ela quer que o casamento ocorra na casa de nossa famlia.
Ela fez um gesto de assentimento. Esse era um arranjo pouco usual, a se considerar o tamanho da maior parte das casas de Buckhead. Teria de avaliar por si mesma 
se haveria condies de fazer a festa l.
Brianna comeou a perguntar as questes de praxe, mas, uma a uma, Spencer no sabia como responder.
 Sr. Lockhart  disse ela, desesperadamente tentando manter a expresso serena.  Talvez seja melhor que Kelly me telefone quando achar conveniente. Eu... no acho 
que o senhor vai poder me ajudar.
Ele a fitou atentamente por um momento e ento comeou a rir, longa e fortemente. Impassvel, Brianna percebeu que a dinmica de seu relacionamento com esse cliente 
fora dramaticamente alterada.
        No, provavelmente no  ele falou, ainda rindo.  Mas considerando que nada disso foi ideia minha... Espere um momento! E claro! O que acha de ir a Nova 
York comigo este final de semana e se encontrar com Kelly pessoalmente?
        Voc quer dizer amanh?
        No, hoje  noite. Eu estou indo para l para passar o fim de semana, de qualquer maneira.
Ela sentiu a boca ficar seca.
        Eu... no sei. Tenho compromissos... Embora no precise pessoalmente supervisionar qualquer casamento este final de semana...
Brianna sentiu-se enrubescer. Mudanas sbitas nos planos sempre a deixavam nervosa.
        Mas mesmo assim... E um homem famoso, sr. Lockhart e viajarmos juntos... Bem, isto poderia chamar a ateno. A espcie errada de ateno, entende?
        Eu sei. Bem, se isto abranda sua conscincia, srta. Fairchild, Charlotte Westwood estar conosco tambm. Ela e eu estamos namorando h... algum tempo.
O sorriso sumiu do rosto de Brianna.
"Bem,  claro que ele tem uma namorada, sua boba...", pensou atarantada.
        Oh... ento... eu acho que isto soluciona a questo. Deixe-me apenas verificar uma coisa...
Por que isso fazia qualquer diferena?
"Por acaso est atrada por ele, Brianna?", uma voz interior lhe indagou.
Ignorando as batidas aceleradas de seu corao, ela chamou Zo atravs do interfone. Confirmando sua agenda,in-formou sobre sua viagem  secretria.
        Bem, acho que posso ir.
        timo!
Ele se levantou da poltrona.
        Enviarei um carro para busc-la por volta das sete horas, tudo bem? O motorista deve vir neste endereo?
        Sim. Sr. Lockhart?
        Pois no?
        No  que eu no confie em sua palavra... mas preciso de um depsito antecipado, como j sabe.
O comentrio soou como uma bomba. Brianna observou o brilho daqueles olhos desaparecer enquanto ele tirava a carteira do bolso. Claramente aborrecido, preencheu 
um cheque e lhe estendeu.
        Aqui est, espero que seja suficiente.
A brutalidade em seu gesto assemelhou-se a um tapa. Sentindo-se como uma criana punida por uma m atitude, Brianna comeou a tremer de ressentimento e ousou encarar 
o olhar indignado de Spencer.
Pegou o cheque, observou o valor e fez um gesto de assentimento com a cabea. Depois de coloc-lo dentro de uma gaveta, ficou em p. Para seu espanto e aborrecimento, 
sentiu que seus olhos estavam rasos d'gua, mas de alguma maneira conseguiu manter o tom de voz controlado.
        Talvez uma pequena empresa no gere bilhes de dlares  ela murmurou cuidadosamente.  Eu tambm no tenho centenas ou milhares de trabalhadores em minha 
folha de pagamento. Mas o que fao no  menos real do que o que voc faz, a despeito do que obviamente pense a esse respeito. Tenho despesas a honrar toda semana 
e descobri que o mtodo de solicitar um depsito antecipado faz com que as coisas corram melhor. Apenas estou tentando administrar as finanas de maneira profissional 
e justa, e no aprecio que me faa sentir como se estivesse requisitando algo que no merea.
Durante todo o monlogo a ateno de Spencer permaneceu focada no rosto de Brianna. A raiva lhe dava coragem, percebeu ele. Ela o encarava firmemente e percebeu 
que o gelo do olhar de Spencer foi se dissolvendo.
        Voc est absolutamente certa e eu peo desculpas. A inesperada suavidade daquela voz a desconcertou. Ele observou o teto por um momento e ento voltou 
a fit-la.
         que... todo este negcio voltado a casamento  to... to...
Os olhos azuis imploravam por ajuda e a animosidade de Brianna desapareceu.
        ...distante do que est acostumado a lidar,  isto?
        Sim  murmurou.
Subitamente Brianna percebeu que ainda se apoiava na escrivaninha, num gesto para tomar fora. Sem nem mesmo dar-se conta do que fazia, aproximou-se de Spencer e 
tocou de leve a manga de sua camisa.
         por isto que eu estou aqui. Na verdade, no precisa se preocupar com isso nem mais um minuto. Afinal de contas  murmurou, acompanhando-o at a porta 
, tenho certeza de que voc tem coisas mais importantes a fazer.
Ele arqueou uma sobrancelha, falou alguma coisa em resposta e ento deixou o escritrio sem mais uma palavra.
Dez segundos depois, Zo entrava na sala.
        Diga-me, diga-me!
Ela acomodou-se na poltrona onde Spencer sentara havia minutos.
Brianna a brindou com seu sorriso enquanto digitava informaes a respeito de Kelly Lockhart no computador.
        Eu certamente no posso acus-la de no estar interessada no negcio, no  mesmo? Ou deveria dizer, meu negcio?
Zo inclinou-se para frente e apoiou os cotovelos na escrivaninha de Brianna, os longos cabelos brincando nos braos.
        Tem toda razo. Voc vai a algum lugar com aquele homem alto e lindo?
        No fique to excitada assim. A namorada dele tambm ir.
        Namorada  Zo falou, fazendo uma careta.  Ir para onde?
        Nova York. Esta noite. Voltarei no domingo.
Ela salvou as informaes que havia digitado no computador e ento acrescentou:
        O homem percebeu que nada sabia a respeito de como arranjar o casamento da irm. Por isto, como ela est l e eu aqui, decidiu que era melhor levar-me at 
ela e esclarecer diversos tpicos. Sinto muito, amiga. Foi apenas isso.
Zo deu um sorriso enigmtico, brincando com o anel que estava na sua mo direita.
        Tome cuidado.
        O que quer dizer com isto?
Suspirando, Zo cruzou as pernas e comeou a balanar o p.
        Eu tenho um certo pressentimento estranho a respeito de vocs dois.
        Est ficando louca? Eu mal o conheo. E ele tem uma namorada, conforme acabei de lhe dizer.
Brianna hesitou e ento perguntou:
        Por acaso  a mesma espcie de pressentimento que voc teve a respeito de Tom Zimmerman?
        De jeito nenhum. Em relao a ele eu senti medo, pavor.
        E quanto a este homem?
Zo pensou por um momento e ento disse:
        Eu diria que vejo uma possibilidade muito sria e definitiva.
        Por acaso essa caracterstica vem de sua ascendncia chinesa ou alguma habilidade paranormal de ver o futuro?
        Acho que voc tem lido muito a este respeito  Zo falou sorrindo.  Eu no falo com fantasmas, nem nada do gnero.  apenas instinto. E habilidade de discernir 
quando duas pessoas se sentem verdadeiramente atradas. Brianna encontrou o olhar de sua assistente por um breve momento.
        Certo, entendi  finalmente murmurou, voltando ao computador.
        No  justo! Por que ela tem de ir conosco?  Charlotte falou, enquanto colocava um suter dentro da mala.
Spencer tocou-lhe o brao.
        Ora, vamos, Charlotte, voc est exagerando. Isso no tem nada a ver com nossos planos.
A moa se voltou e sentou-se na beirada da cama.
        Eu pensei que fssemos ficar sozinhos!
Spencer suspirou. Eles passavam muito tempo sozinhos, bastava ela pensar um pouco a esse respeito, mas sabia como chamar-lhe a ateno. Em vez disso, sentou-se a 
seu lado e ps o brao ao redor de seus ombros.
        E ser, meu amor. Ela estar ocupada com Kelly durante a maior parte do tempo. E ns passaremos todo o dia de amanh fazendo compras. Voc mesma disse que 
gostaria.
Charlotte pensou no que havia ouvido por um momento e ento suspirou de novo.
        Bem, acho que voc tem razo.
Relaxou um pouco e lhe deu um sorriso leve.
        Sinto muito.
Spencer deu-lhe um beijo na testa e a apertou levemente de encontro ao corpo.
        Agora voc est sendo uma boa menina. Alm do mais, acho que voc gostar da srta. Fairchild.
Charlotte suspirou e ficou em p novamente para acabar de fazer a mala. Pegou diversos itens como se fosse passar todo o inverno fora de casa.
        Por que acha que eu gostarei da srta. Fairchild?  indagou, pegando uma pequena maleta de veludo da gaveta e ento comeando a selecionar as jias que levaria.
        Oh, francamente, Charlotte! Voc no tem de se preocupar com aquela mulher. Apenas achei que poderia gostar dela. Isto  tudo.  uma senhorita muito agradvel.
Spencer olhou para o relgio de pulso.
 Voc est pronta? Teremos de partir em dez minutos.
Charlotte estava de costas e Spencer observou que fazia um gesto de assentimento, os ombros muito tensos.
Aquele final de semana prometia ser mesmo muito divertido.

CAPITULO III

Brianna costumava viajar com frequncia, mas mesmo assim no confiava muito em avies. No sabia ao certo se tinha medo de um desastre areo ou de sentir-se mal.
Independentemente da causa de seus temores, sentiu a j familiar apreenso no instante em que o motorista deixou-a prxima ao avio privativo do sr. Lockhart.
Depois que suas malas e equipamentos da loja foram devidamente acomodados dentro da aeronave, ela tambm entrou.
Viu-se em meio a um ambiente tipicamente masculino, onde predominavam tons de bege e cinza. Seu cliente, mostrando-se imperturbavelmente bonito em um terno azul-marinho, 
sentava-se em uma das doze confortveis poltronas.
A seu lado estava uma vistosa morena muito bem vestida. Brianna tocou a bainha de sua tnica favorita desejando estar vestindo algo um pouco mais clssico do que 
aquela blusa e a cala jeans.
        A est voc  Spencer falou, levantando-se.
Sua voz era calorosa, o sorriso ainda mais. O corao de Brianna involuntariamente acelerou o compasso.
        Estvamos comeando a pensar no que lhe teria acon
tecido.
Brianna sorria cortesmente ao se aproximar do casal.
        Pista molhada, noite de sexta-feira... Uma combinao nada adequada.
Todos riram e ela notou como a moa a inspecionava. 
As apresentaes que se seguiram deram a Brianna a oportunidade de fazer o mesmo.
Estendeu a mo para Charlotte e notou que a morena tinha o tipo de seios que provavelmente requereriam toda uma vida de exerccios especficos. Viu em seus olhos 
um ar de desprezo, mas no se deixou abalar. Declinou do convite para jantar, mentindo que precisava trabalhar. Spencer no confessou. Tanto melhor, assim ela se 
sentou em uma poltrona bem afastada.
O avio decolou e Brianna lentamente foi se acalmando. Abriu a imensa bolsa que trouxera consigo e de l tirou uma agenda. Rapidamente perdeu-se no desenho de um 
modelo de vestido e nem percebeu que seu trabalho estava sendo observado por sobre seu ombro.
         maravilhoso!
Quase no ouviu o comentrio devido ao barulho do motor. Olhou para cima e ento para onde Charlotte estava sentada. Ela se entretinha com uma revista, tamborilando 
os dedos no brao da poltrona devido  musica que aparentemente vinha dos fones de ouvido.
Satisfeita por a moa no estar lhe lanando olhares de dio, Brianna permitiu-se sorrir para Spencer e ento apagar um erro que havia cometido.
        Obrigada. Mas ainda no terminei.
        No?
Ele ajoelhou-se a seu lado, exalando a cara loo aps barba.
        No. A noiva gosta de muita renda.
Ele franziu o nariz, uma expresso estranha em uma face to digna.
        Por qu? Est to bonito assim! Simples. Descomplicado.
        Concordo plenamente, sr. Lockhart.
        Por favor... Spencer.
Ela fez uma pausa, imaginando como o nome soaria em sua boca, e ento continuou:
        Mas  meu trabalho dar  noiva o que ela deseja. E essa aqui quer muita renda.
Franziu a testa enquanto continuava desenhando, apagando e refazendo. Mais uma vez Spencer chamou-lhe a ateno.
        Olhe, eu... eu gostaria de pedir desculpas novamente por minha... rudeza com voc anteriormente. s vezes eu me esqueo que nem todo mundo com quem me encontro 
 um concorrente potencial a ser subjugado e conquistado. 
Olhou para o cho por um momento e ento acrescentou:
        Acho que comeamos da maneira errada. Voc tem uma excelente reputao, e foi por isto que Kelly pediu que eu a contratasse para cuidar dos preparativos 
para o casamento. E estou vendo uma prova no apenas de seu excelente senso para os negcios, mas tambm de seu talento.
Estendeu-lhe a mo e sorriu.
        Amigos?
No foi difcil retribuir o sorriso.
        Amigos  concordou, dando-lhe a mo sem pensar duas vezes.
Apenas um aperto de mos de negcios, nada diferente das centenas de outros que dera e recebera durante os recentes trs anos.
Ento por que seu corao batia to aceleradamente no momento em que se tocaram? Por que seu olhar foi atrado pelos brilhantes olhos azuis?
        Nem posso lhe dizer como estou satisfeito por voc estar cuidando disso para minha famlia  falou ele.
        Eu tambm.
Brilhante!
        Querido?  chamou Charlotte em tom meloso.
Com o rosto inexpressivo, Spencer murmurou as palavras:
        O dever me chama.  Voltou-s e abruptamente retornou a seu assento.
Franzindo a testa, Brianna retomou o trabalho, pensando na frase que acabara de ouvir. Poderia apostar que ele no costumava fazer isso com muita frequncia. Ento 
seus pensamentos migraram para a moa dengosa que o acompanhava. O que um homem como Spencer Lockhart fazia com algum como Charlotte Westwood?
E quanto  sua prpria reao ante o aperto de mo... Bem, pensou ela, era melhor voltar a dedicar-se  renda do vestido. Porque no havia explicao alguma plausvel 
para o que havia acontecido.
Brianna estava em p no terrao do apartamento de cobertura de Spencer na Quinta Avenida, observando o Central Park. Abraava o prprio corpo na tentativa ftil 
de proteger-se do vento de fevereiro que a enregelava. Ainda se ouvia o barulho ensurdecedor do trfego vinte andares abaixo.
Seu olhar observou a fila de luzes encaminhando-se para a rua Sessenta e Seis bem como a de txis aguardando para levar as pessoas que saam de jantares para casa.
Olhando atravs do parque, notou luzes acesas facilmente visveis atravs das rvores. Pde notar que eram as luzes do Upper West Side, e mais adiante, j difusa 
pela nuvem de poluio, New Jersey. Mesmo  noite, a vista era maravilhosa.
        Ei, no acho boa a ideia de transportar um cubo de gelo de volta a Atlanta no domingo.
A voz baixa de Spencer a acordou do transe em que se encontrava. A brisa realmente estava gelada.
Ele saiu para a varanda e lhe fez companhia, as mos nos bolsos da jaqueta.
        No estou com frio  mentiu ela. - Alm do mais... eu mal podia esperar para ver tudo isso.
Spencer apoiou os cotovelos na amurada e suspirou.
        Entendo o que quer dizer. J estive no mundo todo mas, por mais estranho que isto possa parecer, no h lugar  altura de Nova York.
Fitou-a, mas Brianna no conseguiu ver sua expresso devido  parca luz que se infiltrava atravs das janelas fechadas. Ento ele riu.
        No est com frio? Est tremendo tanto que quase fica fora de foco. Venha aqui.
Despiu a jaqueta e colocou-a sobre os ombros de Brianna, mas ela fez um sinal de cabea em direo ao apartamento.
        Acho que eu no faria isto, se fosse voc.
Spencer hesitou e ento pegou de volta a jaqueta.
Se voc diz... Mas no acho que tenha razo.
Jogou a jaqueta em uma cadeira prxima, como a recusar-se a ficar mais aquecido do que ela estava e ento voltou a recostar-se na amurada.
Brianna cruzou os braos mais fortemente.
        A propsito, onde est Charlotte?
        Foi para a cama.
Fez uma pausa e ento acrescentou:
        Sozinha.
Brianna enrubesceu. No deveria, j que a maneira como seu cliente resolvia dormir no era da sua conta. A despeito da escurido que o impedia de observ-la com 
clareza, achou mais prudente virar-se para contemplar a cidade.
Uma sbita golfada de vento assanhou-lhe os cabelos bem como a tnica. Nesse momento seus dentes passaram a tremer.
        A que horas Kelly vir amanh?  indagou com voz muito trmula enquanto tentava segurar os cabelos.
        Ouviu como falou?
Spencer rapidamente pegou a jaqueta que estava sobre a cadeira e a colocou ao redor do corpo de Brianna novamente, dessa vez fazendo as mos permanecerem ali para 
que sua oferta no fosse recusada.
Foi como se ela tivesse se partido em duas. Em parte sentia-se feliz por estar recostada ao peito forte e sentir o calor daquelas mos passar atravs do tecido. 
Outra poro de si, entretanto, reagia ao toque inocente com um pnico intenso. Alvio e arrependimento confrontavam-se em sua mente quando Spencer afasto-se um 
pouco.
        Mulher teimosa  ouviu-o murmurar.  Ns pode ramos entrar no apartamento, voc sabe.
        Oh... S mais um minuto, por favor!  conseguiu falar. 
 O ar est to lmpido depois de termos estado dentro de um avio.
Ajeitou-se melhor dentro da jaqueta de l, plenamente consciente de que a utilizava como substituta do dono.
Uma substituio segura, admitia. Tinha o mesmo perfume de Spencer: limpo, forte e sem dvida alguma intensamente masculino.
Kelly estar aqui por volta das dez horas da manh, assim voc poder dormir a contento.
        Dormir?  Brianna falou rindo.  Improvvel. Tenho muito trabalho a fazer. A propsito, meu quarto  adorvel.
        Fico contente que tenha apreciado. Apesar de no ser cor-de-rosa, no  mesmo?
O corao dela novamente se acelerou quando recebeu uma piscadela. Ento Spencer conteve um bocejo.
        Oua, voc pode ficar aqui e congelar at a morte, mas eu acho que vou entrar, caso no se importe.
        E claro, por favor... V em frente.
Ele passou pelas portas mas se deteve.
        E trate de...
Brianna sorriu.
        Entrarei em breve. Prometo.
Ante a hesitao de Spencer, falou:
        Eu juro!
        Est bem...
Finalmente ele entrou no apartamento, deixando a porta levemente entreaberta para que no ficasse trancada.
Brianna sentou-se em uma das cadeiras da enorme varanda, fazendo a jaqueta chegar at a altura das orelhas.
Ela tivera razo em seu palpite, pensou sorrindo ao tirar mais uma vez uma mecha de cabelos do rosto.
Spencer era to gentil quanto Brianna achara que seria quando o vira na entrevista de televiso e observara aqueles olhos maravilhosos.
Por Deus, no conseguia se lembrar da ltima vez em que algum havia se preocupado com ela. No seria maravilhoso se...
"Ol? Srta. Fantasia?! Ele tem uma namorada, lembra-se?", a voz de sua conscincia apressou-se em avis-la.
Seu suspiro foi alto o bastante para ser ouvido apesar do vento.
Brianna tivera inteno de acordar antes das sete horas da manh, mas seu corpo simplesmente no a obedeceu. Quando finalmente conseguiu forar um olho a abrir-se, 
o
relgio de cabeceira mostrava que passavam cinco minutos das nove horas.
Afastou as cobertas e saiu da cama, apenas para voltar a sentar-se devido a uma tontura.
Depois que sua viso clareou momentos mais tarde, foi em direo ao chuveiro. Banhou-se, penteou os cabelos, maquiou-se e ento permaneceu imvel de robe no centro 
do quarto, completamente incapaz de decidir o que iria vestir. Tirou as roupas da mala sobre a cama desfeita, esparramou as peas como se fossem itens  venda e 
ento comeou a rir.
 Pelo amor de Deus!  exclamou para si mesma.  Esta no  uma audincia com a rainha. Apenas vista-se para um compromisso.
Escolheu um suter, jeans e sapatos confortveis. Ela e Kelly caminhariam muito durante o dia e bolhas nos ps certamente no seriam bem-vindas.
Alm do mais, havia muito tempo descobrira que ningum se vestia a rigor em Nova York a menos que fosse absolutamente necessrio. Mesmo assim, olhou-se no espelho, 
perfumou-se e ps brincos de ouro antes de deixar o quarto. O hall do lado de fora estava com um perfume muito mais pesado do que o seu, a nica evidncia de que 
Charlotte estava acordada. De alguma maneira, Brianna soube que a morena j havia sado havia bastante tempo.
O excesso de perfume combinado com o estmago vazio a fez sentir-se novamente zonza a caminho da cozinha.
Spencer vestia um suter simples que lhe salientava os ombros largos. Estava sentado a uma pequena mesa circular com tampo de vidro, situada ao lado de uma janela. 
Tinha uma xcara de caf em uma mo, um jornal na outra.
Seus olhos, duas safiras brilhantes em meio ao sol de inverno, pousaram em Brianna. Ela sentiu-se intimidada e no soube o que falar.
Brianna olhou ao redor, para o que parecia ser uma extraordinria quantidade de comida sendo preparada no fogo. Seu estmago reclamou.
O riso de Spencer foi relaxado e natural.
        O caf da manh ainda no est pronto, embora voc obviamente esteja. Quer caf?
Aceitou. Sentou-se do lado oposto ao dele. Teria sido impossvel no retribuir o amplo sorriso que a mulher de cabelos grisalhos lhe ofereceu ao servir o caf 
em uma linda xcara de porcelana chinesa.
        Srta. Fairchild, esta  Colleen O'Hara, sem a qual este apartamento se assemelharia a um barraco depois de uma noite regada a cerveja.
Brianna j vira quase todo apartamento. De forma alguma e em nenhuma hiptese se pareceria com um barraco.
        Bom dia, senhorita  Colleen a cumprimentou com sotaque irlands.  No lhe d ateno. Ele faz tudo parecer maior e exagerado.
Rindo, voltou ao fogo, os olhos de Brianna seguindo-a como os de um cachorro faminto.
        Charlotte j saiu?  falou, bebericando do caf.
Estava amargo. Colocou a xcara sobre a mesa.
Spencer arrumou o jornal e o colocou de lado.
        Oh, sim. De fato, ela madrugou para encontrar o primeiro vendedor do dia.
Brianna observou Colleen comear a carregar pratos de comida para a sala de jantar. Seu estmago protestava tanto que mal conseguia se concentrar na conversa.
        Parece que ela acha que conseguir comprar coisas em Nova York que absolutamente no existem em Atlanta.
        O qu?  Brianna falou, virando-se para Spencer.
O sol iluminava os cabelos castanho-escuros e lhe dava uma aura dourada, naquela manh. Iluminava tambm as ruguinhas ao redor dos olhos e da boca.
        Sinto muito  ela falou rindo.  Estou com tanta fome esta manh que meu crebro no est funcionando direito. Quando voc disse que Kelly chegar?
        A qualquer minuto.
        Que bom. Voc nos acompanhar no caf da manh?
Ele fez um gesto de negao com a cabea.
        Ao contrrio de certas pessoas deste apartamento, eu me levantei muito cedo. Tomei caf da manh h horas.
        Oh...
        Alm do mais, voc realmente acha que eu de alguma maneira gostaria de estar na mesma sala com uma noiva e uma consultora de casamento?
Brianna devolveu-lhe o sorriso provocador.
        No, acho que no.
Tentou beber mais um pouco de caf. Simplesmente a bebida no estava funcionando naquela manh.
        Suponho que isto signifique que voc no nos acompanhar s lojas para a escolha do vestido tambm.
        Bingo! Poderemos nos encontrar mais tarde para um almoo, entretanto. Ento voc tambm conhecer o noivo.
        E Charlotte?
        No veremos sinal dela at que a ltima loja feche suas portas, pode confiar em mim. A propsito, ela e eu temos ingressos para um espetculo esta noite, 
os quais eu comprei antes de convid-la para viajar conosco. Sei que parece muita indelicadeza minha sair e deix-la...
        Oh, por favor, esquea isto!  Brianna protestou, balanando a cabea de um lado a outro.  A propsito, eu estava pensando se teria oportunidade de visitar 
uma amiga de colgio que mora em Columbia. Tudo se ajeitar perfeitamente.
        Tem certeza?
        Absoluta.
Ele sorriu, francamente aliviado.
        Que bom!
Subitamente a campainha tocou e logo depois Brianna ouviu uma voz feminina trocando cumprimentos com Colleen e depois passos cada vez mais fortes conforme as duas 
se aproximavam da cozinha.
        Spence!
A jovem de cabelos louros irrompeu na cozinha e se jogou nos braos do irmo.
        Ei, garota!
Os dois ficaram abraados por diversos segundos e ento ele a fez virar-se, o brao protetoramente enlaando a cintura esguia.
        Viu o que trouxe para voc?  Spencer falou para sua irm, rindo.  Sua prpria organizadora de casamento.
As duas deram-se as mos e Brianna brevemente avaliou a linda cliente. Kelly, assim como Brianna, tinha seios pequenos, quadris finos e sua magreza dava-lhe um 
encanto incomum. Usava uma blusa de caubi, em cambraia, repleta de franjas e a cala jeans sumia dentro de botas de estilo country do mais fino couro.
As feies delicadas, na realidade uma verso feminina e delicada do irmo, a pele translcida e os cabelos louros davam a Kelly Lockhart um ar etreo de beleza 
e feminilidade. Seria uma noiva de sonho.
Kelly livrou-se do abrao do irmo e pegou o brao de Brianna.
        Puxa, srta. Fairchild. Voc  muito mais jovem do que eu pensei!
Riu e fez um aceno para o irmo, as mos nos quadris.
        E voc tentou me fazer acreditar que esta seria uma tarefa terrvel para o pobre Spencer assumir. Voc pensava que ela fosse horrorosa!
Inclinou-se e deu um tapinha no brao do irmo. Ignorando o rubor que tomou conta de Brianna e de Spencer, Kelly farejou o ar.
        Que cheiro bom! Torradas?
Spencer apontou para a sala de estar.
        Ento por que estamos em p aqui, pelo amor de Deus?  perguntou, pegando Brianna pelo brao e falando ao ir mo:  Voc nos acompanha?
        Sabe o que diz o ditado... Trs  demais.
        Ento... adeus.
Sem cerimnia, Kelly se serviu at que o prato estivesse repleto de bacon, ovos e torradas. O que deixou Brianna aliviada, afinal, no estaria sozinha naquele caf 
da manh.
        Estarei trabalhando no estdio se precisarem de mim. Onde as senhoritas querem que almocemos?  perguntou Spencer, com a cabea entre o vo da porta.
Kelly protestou olhando para seu prato vazio.
        Eu no conseguiria pensar em mais comida neste momento. Alm do mais, desconheo os planos da srta. Fairchild para mim. Brianna riu.
        No importa o que tenhamos de fazer, confie em mim, o almoo definitivamente estar no itinerrio. O que acha de nos encontrarmos em frente ao Bergdorf 
s  uma e meia?
Estar bem para voc?  perguntou a Kelly.
        Claro. Se voc acha que conseguiremos dar conta de tudo at este horrio...
        Confie em mim.
        Est bem, senhoritas... Eu as encontrarei l, ento. E no ouse chegar atrasada, irmzinha.
De olhos arregalados, Kelly levou uma mo ao peito.
        Pode deixar.
Kelly aguardou diversos segundos aps a partida do irmo e ento perguntou, torcendo o nariz em sinal de desgosto:
        O que voc acha de Charlotte?
Brianna quase engasgou.
        Como?
Eu perguntei o que voc acha de Charlotte.
Brianna tentou no rir, cobrindo a boca com o guardanapo. Finalmente murmurou:
        Realmente no acho que esteja em posio de dizer alguma coisa...
        Bobagem!  a loura arguiu e ento suspirou.  Oh, est bem, eu no deveria ter tocado no assunto.  que...  que eu adoro ter algum que partilhe de minha 
opinio... Sabe, acho aquela mulher errada para Spence... E eu posso lhe dizer que ele no a ama. No que isto seja uma grande surpresa...
Brianna teve vontade de incentivar a moa a falar mais sobre o assunto, mas no ousou intervir. Era, afinal de contas, algo que no lhe dizia respeito.
 Mais suco?  perguntou, erguendo a jarra.
Com um aceno de cabea, Kelly estendeu-lhe o copo vazio. A moa suspirou aps tomar um gole. E no foi um suspiro de felicidade.
        O relacionamento de seu irmo com a srta. Westwood realmente a aborrece tanto assim, srta. Lockhart?
        Sim, aborrece, embora no seja isto que esteja me irritando neste momento. E por favor, chame-me de Kelly.
Ningum me chama pelo ltimo nome.
        Est bem... Kelly...
        E voc se importaria se eu a chamasse de Brianna? E um nome to lindo!
Conversaram animadamente sobre os preparativos, at que o assunto recaiu sobre Spencer.
        Meu irmo no gosta de falar em casamento, alm do meu. Ele foi abandonado.
        Como?
Uma mo delicada pegou o pulso de Brianna.
        Oua, no diga a ele que eu lhe contei. Spencer me esfolaria viva se soubesse que eu abri minha boca.
         claro que nada direi...
Kelly aproximou-se bastante de Brianna.
        Ele foi deixado ao p do altar por uma moa chamada Brbara. Eu tinha doze anos e no gostava dela. Desejava ardentemente que os dois rompessem. Ento, 
quando a noiva no apareceu, pensei que minhas preces haviam sido atendidas. Fiquei muito feliz at perceber o quo terrivelmente triste Spencer ficara. Foram necessrios 
trs anos de terapia at eu finalmente entender que no fora responsvel pela desiluso imensa sofrida por meu irmo.
        Ento...  por isso que ele  contrrio a casamentos  murmurou, mais para si mesma.
        Eu tambm. Talvez achemos que traz m sorte, voc entende?
        Ento...
Brianna resolveu se conter e no mostrar a simpatia que sentia pelo homem que fazia telefonemas de negcios nas proximidades.
        Por que ele quer um casamento suntuoso para voc?
        Por causa de nossos pais,  claro! Colin pertence a uma gigantesca famlia irlandesa e minha me... Bem, vamos dizer que se eu fizesse uma cerimnia simples, 
seria acusada de assassinato.
        Ah!  Brianna exclamou, sentindo alvio.  Ento voc no tem reservas sobre casar-se com Colin?
        Oh, no!  Kelly exclamou, os olhos arregalados.  De fato, ns nos casaramos amanh se o gesto no fosse magoar nossos familiares.
Brianna hesitou, ento colocou a mo no ombro de Kelly.
        Oua o conselho de uma mulher mais velha e mais esperta. Eu descobri h muito tempo atrs que casamentos, como os funerais, no so feitos para os protagonistas. 
So para as outras pessoas. Do modo como vejo, meu trabalho  como qualquer outro. Primeiro organizo uma festa que ir agradar a todos os convidados. Em segundo 
lugar, fao com que o evento seja o menos trabalhoso possvel para o noivo e para a noiva. Vocs tero apenas de aparecer, dizer "sim" e depois partir. Acha que 
pode cuidar disso?
        Sim, com certeza.
Kelly se levantou da cadeira, inclinou-se e deu um abrao em Brianna. Sentou-se novamente e sorriu.
        Voc realmente vai fazer com que tudo d certo, no vai?
        Pode apostar!
Brianna pegou um livro com amostras de convites.
        E agora, voc tem quarenta e cinco minutos para escolher como ser seu convite. Ento iremos para uma loja de vestidos de noiva. Vamos nos mexer, senhorita.
Colocou o volume defronte a Kelly e fitou-a atentamente. A moa riu e abriu o livro.
Elas deixaram a loja Saks  uma hora e quatorze minutos, de acordo com o relgio de Brianna. Isso lhes dava exata-mente dezesseis minutos para chegarem ao Bergdorfs, 
situado a oito quadras de distncia, precisamente  uma e meia. L deveriam encontrar-se com Spencer e Colin. Era um desafio, visto o congestionamento existente 
na Quinta Avenida, mas nada impossvel.
Rindo tanto que mal conseguiam respirar, elas zigueza-guearam atravs de pessoas com sacolas de compras, carrinhos de cachorro-quente e vendedores ambulantes. Quase 
trombaram em pedestres e turistas tagarelando em dezenas de idiomas diferentes e mostrando suas cmeras fotogrficas bem no meio da calada.
        L esto eles!  Kelly gritou para Brianna.
Ela ficou na ponta dos ps para conseguir enxergar atravs das centenas de cabeas.
        Onde?
        Bem l! Oh, sinto muito!  Kelly pediu desculpas ao bater em uma mulher e derrubar suas compras.  No se pode confundir Colin. Ele  ruivo.
Brianna olhou novamente e ento viu uma cabea vermelha. Quando chegaram perto o bastante para enxergarem os dois homens, Kelly subitamente pegou o pulso de Brianna, 
quase a fazendo cair.
        Mais devagar  disse ela e Brianna compreendeu.
Ainda havia dois minutos para que casualmente se aproximassem de Spencer e Colin com sorrisos amplos, a respirao no mais to afoita e os coraes acelerados. 
As duas no ousavam olhar uma para a outra sob pena de carem em gargalhada.
        Bem, bem... elas conseguiram  Colin falou para provoc-las.
Deu um beijo nos lbios da noiva sem nem mesmo tirar as mos dos bolsos da jaqueta de couro. Suas orelhas estavam quase to vermelhas quanto os cabelos.
         claro que conseguimos. Somos pontuais, voc sabe.
         claro  falou Spencer, observando as diversas sacolas nas mos das duas moas.  O vestido de noiva est em uma destas sacolas?
        No  Kelly respondeu com uma careta.  Nenhuma loja tem condio de aceitar mais pedidos.

         mesmo?  Spencer falou, olhando para Brianna.
        Sim  admitiu.  Mas pelo menos eu sei o que Kelly no quer, ento poderei desenhar alguma coisa para ela.
        Inteligente, no ?  falou Kelly, ento ps a mo na barriga.  Agora vamos a um assunto realmente importante. Aonde vamos almoar?
Optaram pelo que era mais prtico e rpido, pois o frio e o vento pareciam penetrar em seus ossos, mesmo estando eles vestindo grossos casacos.
Enquanto caminhavam em direo ao parque, a fim de tomarem um txi, o sexto sentido de Brianna a fez vrar-se. Poderia jurar que vira Charlotte em p defronte ao 
Berg-dorf s com uma dzia de sacolas de compras nos braos, a observ-los com um beicinho digno de uma garotinha de dez anos de idade.

CAPITULO IV

Charlotte saiu do banheiro envolta em um robe. Spencer estava acomodado em uma poltrona, lendo, enquanto aguardava que a namorada trocasse de roupa. Olhou para 
o relgio de pulso e franziu a testa.
        Por que ainda no se vestiu?
Com um sorriso, Charlotte sentou-se na beirada da cama, o robe de seda prpura escorregando de seus ombros e revelando uma linda camisola.
        Sinto muito, Spence...
        O que h de errado?
Ele deixou a revista de lado, pensando em como ela parecia jovem sem maquiagem. E realmente era. Vinte e cinco anos em relao aos seus trinta e seis. Normalmente 
no pensava nesse assunto, mas naquela noite...
        Estou com uma dor de cabea terrvel. Tomei uma aspirina, para ver se melhorava, mas parece que no adiantou. Sinto muito  disse novamente e ele compreendeu.
"Hoje  noite no, querido... Estou com dor de cabea..."
        Oh!
Spencer ficou surpreso com o alvio que sentiu. Levantou-se e sentou-se na cama, pondo o brao ao redor de seus
ombros.
        Olhe, no fique triste. Essas coisas acontecem  murmurou ele.  Suponho ento que no queira ir ao teatro?
Charlotte fez uma careta quando tentou mover a cabea de um lado a outro e ento recostou-se no ombro do namorado.
        A ltima coisa que eu gostaria de fazer neste momento seria ouvir centenas de pessoas batendo palmas.
        Pobre criana. Quer ir para a cama?
Ante o sinal de assentimento, ele se levantou e puxou as cobertas.
        Venha, vou acomodar voc direitinho, depois pedirei a Colleen que lhe traga um jantar bem leve e um pouco de ch.
Ajudou-a a despir o robe e deitar-se na cama, ajeitando diversos travesseiros em suas costas e deu alguns passos para deixar o quarto.
        No... Espere!
Ele se virou.
        Eu... ns precisamos conversar.
Spencer estranhou o comentrio. Charlotte nunca gostava de conversar.
Agora? Pensei que no estivesse se sentindo bem...
        Isto no pode esperar  murmurou e ento suspirou. No mais.
        Est bem  respondeu, sentando-se na cama ao lado dela.  Sobre o que voc quer falar?
        Acho que  hora de nos casarmos.
Brianna abriu a porta do apartamento um pouco antes das sete da noite, utilizando a chave que Spencer lhe entregara.
Ficou surpresa em encontr-lo no meio da sala de estar olhando para o fogo que crepitava na lareira. Tinha as mos nos bolsos e parecia desolado. O barulho da porta 
se fechando aparentemente lhe atraiu a ateno.
 Brianna! Pensei que voc s fosse retornar no fim da noite. Venha, deixe-me ajud-la com o casaco.
Ela tirou as luvas e desabotoou rapidamente o agasalho. O calor do apartamento comeava a anular o frio de seu rosto praticamente congelado. Ficou passando a mo 
na face durante algum tempo.
 Eu poderia dizer o mesmo de voc. O que aconteceu com o jantar e o teatro? 
O perfume da loo aps barba a envolveu enquanto Spencer a ajudava a despir o casaco.
Charlotte no est se sentindo bem, ento nossos planos foram cancelados.
Havia uma rudeza naquela voz que a fez julg-lo mais agitado do que deveria ante a indisposio de sua namorada.
        E voc? Por que no est com sua amiga at agora?
        Decidi que umas poucas horas eram suficientes para uma visita.
Spencer no acreditou naquele argumento pouco convincente. Afinal, afirmara serem muito amigas. Com poucas palavras convencera-a a dizer a verdade, ou seja, que 
no simpatizava com o marido da amiga.
        Quer dizer que agora voc tem toda a noite livre. O que far?  ele perguntou, com os lbios levemente sorridentes.
Ela balanou a cabea de um lado a outro.
        Oh, no sei! Ainda no pensei a respeito. Acho que vou ler... Vi diversos livros em sua biblioteca que me chamaram a ateno.
Spencer acariciou o prprio queixo.
        Sabe... Eu realmente tenho duas entradas para o teatro esta noite...
        Oh! Oh, Deus! Eu no acho...
Spencer levantou as mos para deter o protesto.
        Sim, sim, eu sei. Charlotte. Bem, esquea Charlotte. Ela estar na cama durante o restante da noite. Alm do mais, compreender. Parece um desperdcio jogar 
fora um par de ingressos para um bom espetculo. O que me diz? Conseguiria se aprontar a tempo?
Fez uma pausa, meio encabulado.
        Voc trouxe alguma coisa apropriada para usar?
"Para o diabo com Charlotte. Algum est lhe oferecendo um ingresso livre para um espetculo da Broad-way", aconselhou-se.
        Nunca vou a lugar algum sem pelo menos levar uma roupa respeitvel. Oh, est bem ento! Voc me convenceu. Estarei de volta em cinco minutos.
        Cinco?!
        Tem razo. Tenho de arrumar os cabelos. Dez minutos ento.
        No acredito!
A caminho do hall, ela se virou.
        Sete?
        O qu? Oh, no, no  isto... Poderemos assistir ao espetculo sem qualquer problema, mas no teremos tempo para jantar antes.
Brianna sorriu.
        No h problema algum.
Eles estavam em p na esquina da rua Quarenta e Sete com a Broadway. A entrada do teatro estava repleta. Como ainda tinham pouco mais de meia hora, Brianna sugeriu 
um lanche rpido  porta do teatro. Mas logo se arrependeram: manusear um cachorro-quente to bem-vestidos tornou-se uma tortura. Desistindo, resolveram se desfazer 
dos sanduches na lixeira mais prxima.
Comearam a se esgueirar pela multido que lotava a frente do teatro. Estar to confortvel na presena de Spen-cer a fazia pensar que as coisas poderiam ser diferentes 
e ela no gostava nada disso. Seria confuso na certa.
        Ei!  exclamou Brianna, tentando fazer a prpria mente mudar de assunto  Aquele rapaz ali no pra de me encarar. H mostarda em meu rosto ou algo assim?
        Deixe-me ver...
Tirando um leno do bolso, passou-o pelo queixo de Brianna, nem fazendo ideia do calor que a tomou ante o toque.
        Parece ter mais um pouquinho de mostarda aqui...
Ele gentilmente limpou o canto de sua boca. O rosto estava to prximo que Brianna podia sentir-lhe a respirao. Comeou a tremer, confusa. No era isso que havia 
esperado ou desejado. Nem jamais sentido.
O que no era bom sinal.
O leno deixou o queixo e os olhos azuis inspecionaram o rosto de Brianna em busca de novas aberraes a serem remediadas.
        Pronto. Tudo feito. Agora se algum olhar para voc, pelo menos poder ficar tranquila. Seu rosto est completamente limpo.
Tentando acalmar a respirao, Brianna virou a cabea na direo de uma mulher muito alta, vestindo roupas de couro brancas. O casaco era de pele de leopardo e ela, 
sem qualquer discrio, jogava beijos na direo de Spencer.
 No h nada em seu rosto  comentou Brianna, divertida.  Por que aquela mulher est lhe dando tanta
ateno?
Ele aparentou aborrecimento quando passaram ao lado da loura. A moa certamente viu que estava acompanhado, mas ao que tudo indicava, isso no significava impedimento 
para tentar lhe sugerir que ela seria uma companhia muito mais interessante.
Brianna sentiu-se desrespeitada mas procurou se acalmar.  Ei, espere um minuto!  exclamou ela, pegando o pulso de Spencer.  V aquele relgio mais adiante? Seu 
relgio est dez minutos atrasado!
Sem dizer uma palavra, tirou os ingressos do bolso, pegou a mo de Brianna e correram para o teatro. Sem flego e rindo, os dois passaram pelo saguo e Spencer entregou 
os bilhetes ao porteiro.
Os assentos ficavam na terceira fileira, o que significava que teriam de pisar em doze ou mais pares de ps para chegarem a seus lugares.
Conseguiram se acomodar exatamente quando as primeiras notas do espetculo comearam a soar.
A urgncia em manter o riso sob controle a fez ficar imvel durante alguns minutos. Cautelosamente olhou para Spencer e percebeu que ele tambm estava tendo o mesmo 
problema para conter o riso.
Foi naquele momento que Brianna apaixonou-se por ele. No instante em que o riso adolescente tentava ser detido pela razo daquele homem to digno e respeitado.
No fazia ideia se havia algo que poderia conter o que sentia. Mas, naquele momento, tinha de ser honesta consigo mesma. No importava o quanto a verdade provavelmente 
fosse machuc-la.
Confusa, obrigou-se a prestar ateno na cortina que se abria. Mas ento, claramente sufocado, Spencer comeou a tossir. Brianna inclinou-se em sua direo.
 Voc precisa de um pouco de gua?  perguntou em um sussurro.
Spencer balanou a cabea de um lado a outro enquanto tossia mais alto.
Brianna abriu a bolsa em busca de balas. Finalmente encontrou um pedao de uma j aucarada e com um pouco de sujeira grudada. No poderia oferec-la a um cachorro, 
quanto mais a um cliente multimilionrio.
Mas ele continuava tossindo.
Brianna sentiu um leve tapinha em seu brao e ento viu um pacote de balas diante de seus olhos, oferecido por uma mo muito magra repleta de anis de platina.
 Pegue  a dona da mo ordenou, empurrando a bala para Brianna.  Voc bem poderia ter um namorado mais saudvel.
Ao ouvir isso, a batalha de Brianna contra o riso foi irrevogavelmente perdida.
Entrosados em animada conversa, Brianna e Spencer saram para a calada depois do espetculo, conforme o restante da multido. Ento pararam, feito duas pedras 
no meio de um rio de correnteza agitada.
Spencer no queria que a noite terminasse, no gostaria de encarar a realidade, mas sabia que era inevitvel. Tocou o cotovelo de Brianna e a conduziu em direo 
 Broadway.
        Devemos pegar um txi de volta ao apartamento?  indagou ele.
        Eu preferiria caminhar um pouco, se voc no se importasse.
Ele fez um gesto em direo aos saltos altos.
        Mas voc consegue?
Brianna riu e Spencer notou como o riso era melodioso. E perigoso tambm.
Desde que no esteja com pressa...  murmurou.
Ento, suspirando, olhou ao redor.
Adoro Nova York  noite. Mas sempre vim para c sozinha para uma semana de compras. Posso ser louca, como voc disse, mas no sou tola. Sei melhor do que ningum 
andar por esta regio sozinha e  noite. Mas  muito bom ter companhia.
Era mesmo. Caminharam em confortvel silncio durante diversos minutos, cada qual com as mos metidas nos bolsos, olhando despreocupadamente os produtos expostos 
nas vitrinas e trocando olhares de aprovao acerca de determinadas pessoas que cruzavam no trajeto.
Quando Spencer teve certeza de que ela no notaria, encarou Brianna pensativamente.
        Voc no  originria de Atlanta, ?
        Sou da Carolina do Norte. Greensboro. Passei diversos anos aqui em Nova York, como j sabe.
        E ento?
        Ento voltei para casa para ficar com meus pais. Mame ficou doente durante muito tempo.
        E como ela est atualmente?
        Faleceu quando eu tinha vinte e cinco anos.
        Oh, sinto muito.
Ela deu de ombros em sinal de conformismo e ajeitou a bolsa.
        E seu pai?
        Morreu h trs anos.
        Eu realmente estou me saindo muito bem essa noite...  condenou-se.
Sentiu que Brianna lhe tocava a manga do casaco.
        Est tudo bem. De verdade.
Mas o franzir de testa dela dizia o contrrio. Mesmo assim, Spencer no quis continuar a falar daquele assunto triste. Em vez disso, perguntou-lhe:
        Ento diga-me como chegou a Atlanta.
Observou a luta interior de Brianna ao questionar o quanto deveria falar.
        Vim em busca de dinheiro, na verdade. Meu pai sempre investiu uma boa parcela do seu salrio no muito avantajado como mdico. Fiquei pasma, aps sua morte, 
quando o advogado me disse o montante de minha herana. Eu no tinha vontade de permanecer em Greensboro nem de morar em Nova York, por isso resolvi tentar Atlanta. 
Ento veio a oportunidade de comprar a Luella's... o restante voc j sabe.
        Presumo que seja filha nica?
        Sim. Meus pais estavam na casa dos trinta anos quando em cheguei. Fui uma surpresa e tanto. Acho que estraguei o paraso dos dois.
        No h nada em voc que possa estragar a vida de algum, pode acreditar.
Um vento muito frio fez encolher-se enquanto viravam na rua Broadway e comeavam a caminhar na parte sul do Central Park.
Oh, mas eu os atrapalhei durante bastante tempo. Acho que percebi isto quando tinha cerca de vinte anos.
E mesmo? E como foi?
No tenho muita certeza. Acho que apenas cresci.
Aprendi que havia pessoas mais espertas e mais importantes do que eu, e isto  tudo.
Spencer sorriu ante a franca maneira de ela se expressar.
Duvido que haja muitas pessoas que possam mesmo aproximar-se de voc quanto  inteligncia, Brianna.
Ela virou-se para encar-lo com um meio sorriso. Havia alguma coisa especial naquele olhar que o amedrontou.
        Obrigada  murmurou Brianna em uma voz muito suave e dentro de seu peito tudo se alegrou.
O encantamento do elogio no durou muito tempo.
        Algumas coisas a seu respeito ainda so incompreensveis para mim  Spencer vagarosamente murmurou, como se lutando contra as palavras.  Como voc terminou 
abrindo uma loja para noivas? Com todo seu estudo e inteligncia, haveria tantas coisas mais... compensadoras para voc fazer.
Brianna ficou imvel, forando-o a parar tambm. Teria ouvido corretamente? Rindo, falou:
        Eu apreciaria muito se no fizesse isto soar como se eu estivesse vendendo drogas, por favor.
        Voc no compreendeu...
Subitamente Brianna sentiu-se exausta, confusa e furiosa.
        No, Spencer, voc  quem no entendeu  falou em tom spero.  Eu pensei que havamos conversado o suficiente a este respeito, mas subitamente percebo 
muito antagonismo em Voc, da mesma forma quando entrou no salo. No gosto nada disso e no compreendo sua atitude. E eu realmente no quero ouvir mais nada a 
respeito. Comeou a caminhar, ajeitando o colarinho do casaco.
        Sinto muito  Spencer murmurou ao alcan-la.  Eu no posso deixar de sentir isto. Eu realmente acho que. toda esta histria de empreendimentos voltados 
a casamentos  uma grande hipocrisia.
Ela se virou.
        Oh, voc acha? E quanto ao casamento em si? Tambm considera uma perda de tempo?
Se Spencer pensava que mascarava a confuso do olhar, estava muito enganado.
        Caso esteja se referindo ao conceito idealista de duas pessoas estarem apaixonadas pelo restante de suas vidas...
sim, eu acho.
Durante um momento a decepo suplantou a raiva. Ento, mais recomposta, Brianna deu de ombros e continuou a caminhar dizendo a si mesma que no se importava se 
Spencer a seguiria ou no.
        Bem, mas como o restante do mundo no pensa como voc, eu me considero til fazendo um trabalho que preenche uma necessidade dos consumidores.
        Brianna... No quis dizer que julgo seu trabalho uma perda de tempo.
Ela virou-se para encar-lo, incrdula.
        Voc acabou de dizer isto h trinta segundos atrs!
Havia algo no rosto de Spencer que ela no conseguia decifrar, uma coisa que ia alm de seu aparente descrdito quanto  profisso que ela escolhera. Mas precisava 
faz-lo compreender. Suspirou, exasperada.
        Veja; as pessoas vo se casar, quer voc queira, quer no. E algumas dessas pessoas querem casamentos muito festivos e luxuosos. Como sua me e os pais 
de Colin, concorda? Bem, acontece que essas cerimnias luxuosas so como pequenos espetculos da Broadway. E preciso arrumar a iluminao, roupas adequadas, ter 
certeza de que o elenco estar no lugar adequado e no momento certo. Pois  isso que eu fao. E muito bem. As pessoas me pagam para que eu execute este trabalho. 
E meu trabalho, Spencer. Apenas isso.
        Por que age de maneira to defensiva, Brianna?
        Eu? No seria por acaso voc?
Uma sirene tocou a alguns quarteires de distncia, mas o barulho era to alto que lhes desviou a ateno. Ela inclinou a cabea para o lado, aguardando por uma 
resposta que no veio. Por isso, decidiu continuar a falar.
        Eu ajo assim porque voc faz com que eu fique me
defendendo. E por um outro motivo...
Estremeceu e fechou os olhos antes de se lembrar de dezenas de razes por que no deveria mais abrir a boca. No adiantou.
        Porque eu quero demais que voc aprove o que eu fao.  Levantou o rosto para encar-lo.  Sinto necessidade que me aprove.
Brianna no conseguiria lembrar mais tarde de como tudo aconteceu. Apenas sabia que ele a tocou nos ombros no momento exato em que a boca quente e firme selava a 
sua para um beijo desesperado. Seu sangue se incendiou.
Tudo ocorreu to rapidamente que ela nem mesmo teve tempo de perceber a plenitude do fato, quanto mais de sentir medo. Quando se afastaram, o rosto de Spencer era 
uma mscara de angstia.
        Oh, Deus... Eu sinto tanto, Brianna! Esta foi uma estupidez de minha parte...
Os lbios dela tremeram, ainda conscientes do carinho recm-recebido. Estendeu a mo para tocar o rosto de traos to msculos, mas Spencer deu um passo para trs.
        Spencer... No h nada do que se lamentar...
        No? Bem, mas com certeza existir o amanh.
Brianna sentiu um conhecido aperto no corao.
        Eu no compreendo...
        Charlotte quer se casar.
Brianna no conseguiu mover-se, nem sequer pensar pelo que lhe pareceu serem vrios minutos. E ento uma torrente de emoes passou por sua mente, fomentando o riso 
selvagem e irracional.
"Voc nem mesmo poderia me permitir dez segundos de felicidade?", pensou ela, ao ouvir o som do prprio riso. "Nem mesmo dez curtos segundos!", complementou.
Seus joelhos ameaaram falhar e Brianna se apoiou contra o banco de uma parada de nibus.
        Tem certeza de que a insana sou eu?  indagou em tom mais alto do que seria apropriado.
Sentiu-se  beira da histeria ao notar a expresso de espanto no rosto de Spencer. Deu-se conta de que era preciso se acalmar.
        Quero dizer, pense a respeito. No foi voc quem h exatamente dois minutos atrs disse com muita clareza que julgava o casamento uma hipocrisia? Ou as 
palavras vieram de alguma outra pessoa parecida com voc?
Ante o som daquelas palavras, Spencer virou-se e a reao histrica de Brianna desapareceu to rapidamente quanto viera, em seu lugar assentando-se uma estranha 
calmaria.
Durante vrios segundos, nenhum dos dois sequer se moveu ou falou.
Ento Brianna finalmente disse:
        Voc tem de admitir a ironia dos fatos. A questo : voc quer se casar com Charlotte?
Aps um riso irnico e abafado, ele respondeu:
        A questo : conforme voc mesma sugeriu, ser que eu quero me casar com qualquer pessoa?
Aps uma longa pausa, Brianna suspirou:
        E qual  a resposta?
Quando percebeu que Spencer no iria, ou no poderia lhe dizer o que j sabia, ela finalmente falou com toda graciosidade que pde reunir:
        Bem, espero que voc seja muito feliz.
Subiram no elevador juntos mas como se fossem dois estranhos. O que, percebeu Spencer, realmente eram, a despeito do fato de seus lbios ainda queimarem com o calor 
transmitido pela boca de Brianna.
Nunca um beijo lhe causou tamanho rebulio nos sentidos. Nem mesmo o de Charlotte detinha poder semelhante.
No, com certeza no o de Charlotte!
Mas no se podia tomar decises baseando-se em distrbios glandulares, no importava o quo profundos fossem. Ou agradveis. Spencer sempre tomava decises calcadas 
em fatos lgicos, em razes slidas.
Jamais sob efeito da lembrana de lbios sedosos pressionados contra os seus.
E tambm certamente no tendo como base as peas que seu corao tentava lhe pregar. Isso ele jamais permitiria que voltasse a acontecer.
Para a maior parte das pessoas o que o mundo chamava de amor era uma cruel iluso, um conceito criado por fabricantes de doces para venderem mais chocolates no 
dia dos namorados.
A porta do elevador se abriu. Brianna saiu e permaneceu aprumada defronte  porta enquanto ele colocava a chave e a abria.
Charlotte estava em p no centro do vestbulo branco e preto, os braos firmemente cruzados. Nada falou. Em vez disso, seus olhos escuros migraram do rosto de Spencer 
para o de Brianna e novamente para o de seu namorado. Podia-se ver que tremia de raiva. E cime.
Como se fosse movido por uma fora incompreensvel, Spencer cruzou o espao entre os dois e tomou Charlotte nos braos. Segundos mais tarde, ouviu a porta do quarto 
de Brianna bater sonoramente.
Brianna recostou-se contra a porta do quarto, deixando as lgrimas molharem seu rosto. Mal conseguia respirar. Vagarosamente encaminhou-se para a cama, abraando 
o prprio corpo. Sentia-se em meio a uma tempestade de emoes violentas e contra as quais no sabia lutar.
"Bem, senhorita, voc certamente no pode culpar Spencer dessa vez", pensou ao pegar um leno de papel.
No podia esperar que Spencer terminasse seu compromisso com uma mulher que namorava havia um ano para ter um relacionamento com uma pessoa que conhecera havia 
quatro dias. O que afinal esperava: uma confisso de amor depois de um nico beijo?
Talvez ela realmente tivesse notado confuso naquele olhar, ouvido uma certa ambivalncia quando Spencer falara sobre casamento. Mas nada daquilo tivera algo a ver 
com Brianna Fairchild.
Queria jogar alguma coisa contra a parede, descarregar a raiva. Olhou ao redor do quarto e ento para a cama.
Travesseiros! 
Diversos!
Sentindo-se como uma criana de trs anos de idade, passou a jog-los furiosamente contra a cama, atirando um tambm de encontro  poltrona prxima da janela.
Porm seus protestos de nada adiantaram, pois alm de Charlotte, lembrou-se de que nunca poderia ser correspondida, afinal Spencer no acreditava no amor. Enxugando 
as lgrimas, forou-se a superar a crise, pelo menos, momentaneamente.
Seus pensamentos vagaram para a prxima semana e o ms seguinte. Subitamente lembrou-se de que no havia colocado em sua agenda uma reunio importante. Sabendo que 
voltaria a se esquecer se no tomasse conta disso imediatamente, forou-se a sair da cama e pegar a agenda de sua bolsa.
Sentou-se defronte a uma pequena escrivaninha e acendeu a lmpada, bocejando ao virar as pginas. Anotou o que precisava ento franziu a testa, subitamente desperta.
Ela deu uma olhada nos meses anteriores, os olhos pousando em uma anotao pessoal. Ento retornou ao ms corrente, sabendo que a informao no estava ali.
Sentiu o sangue sumir de sua face. Empalideceu.
Um riso escapou de sua garganta. Sempre se orgulhara tanto de sua habilidade em simplificar a vida. Sempre fon to organizada, controlada, tendo em mente apenas 
o que lhe interessava.
Naquele momento, parecia que tudo isso lhe escapava saa flutuando pela janela. Permitira-se cair de amores por Spencer Lockhart e nada se comparava a isso.
Voltou a fitar a agenda e comeou a contar as semanas em voz alta, como se ao escutar esse som as coisas se tornassem mais reais.
No havia dvidas.
Sua ltima menstruao ocorrera seis semanas atrs.

CAPITULO V

        Voc  um grande tolo, filho!
Spencer observou a expresso dura e bela do rosto da me. Ela estava sentada  mesa do lado oposto ao seu durante o caf da manh.
        Acredito que o mais correto a se dizer nessas ocasies seja algo como: "Parabns. Espero que vocs sejam muito felizes".
Edwina Lockhart deu de ombros e ento fixou os brilhantes olhos azuis no filho.
        Mantive minha boca fechada durante o namoro, achando que mais cedo ou mais tarde voc recobraria os sentidos.
Obviamente enganei-me. Talvez eu deva voltar para a Europa. Ser muito fcil, afinal, ainda no desfiz as malas.
        Mame, no seja dramtica. Diz isso porque no conhece Charlotte, ela ser uma boa esposa.
Spencer sempre soubera da averso que sua me sentia pela noiva, mas a reao dela diante da notcia fora surpreendente.
Spencer tomou o ltimo gole do caf e resolveu mudar de assunto.
        Acho que gostar da srta. Fairchild. Seu trabalho  de excelente qualidade.
        Fico feliz em saber que algum faz algo por aqui  a sra. Lockhart murmurou enquanto juntava farelos de po na palma da mo.  Quando ela vir?
        Por volta das nove horas. Chegar a qualquer minuto.
        timo. Talvez a conversa sobre o casamento de sua irm distancie minha mente do seu casamento.
O ltimo dia em Nova York fora como um sonho ruim. Brianna estivera aflita por causa da descoberta de seu atraso menstrual. Para piorar, tivera de suportar tambm 
o frio comentrio de Spencer, logo pela manh, a respeito de seu noivado com Charlotte. Seu nico desejo fora que o dia terminasse rapidamente.
Tivera seu encontro com Kelly, um compromisso que ela procurara fazer ser o mais breve possvel, admitia. Passara o restante do dia passeando sozinha, incapaz de 
afastar a depresso que a assolava.
A despeito de sua situao, sentiu-se muito mais animada quando retornou a Atlanta. Em grande parte isso devia-se  agenda atribulada que simplesmente lhe deixava 
pouco tempo para se preocupar com problemas pessoais, embora soubesse que teria de lidar com o assunto logo. Muito em breve.
Uma visita  mdica colocou fim  dvida que a atormentava.
        Bem, querida... o que voc pretende fazer?  perguntou a dra. Steinberg.
Brianna sabia a que ela estava se referindo. Mas j tomara uma deciso. Embora interiormente estivesse apavorada, sorriu ao anunciar:
        Terei o beb, doutora.
E ento caiu em lgrimas.
A mdica pegara-lhe a mo at perceber que se acalmava, ento comeara a fazer com que se lembrasse das flutuaes hormonais comuns ao estado de gravidez, bem como 
alteraes de humor. Depois, marcaram a prxima consulta pr-natal de Brianna.
Isso fora duas semanas antes. Nesse momento, ela estava com horrio marcado para uma reunio com os Lockhart em uma hora. Entrou em sua van, afivelou o cinto de 
segurana, ligou o motor e partiu.
"Eu vou ter um filho", pensou ela.
Isso lhe passara pela mente dezenas de vezes desde que sara de casa. E cada vez que isso lhe ocorria, parecia-lhe mais real, um pouco mais real. 
E menos assustador.
Sabia que teria de lidar com a situao inteiramente sozinha. A criana no fora concebida com amor ou mesmo, pensou tristemente, com prazer. Mesmo assim, o feto 
crescia dentro de seu ventre, assim como sua satisfao com a ideia de receb-lo no mundo.
Aos trinta e trs anos, j havia quase se conformado em no ter filhos. Atualmente, entretanto, cada vez que via um beb em um carrinho ou descansando no colo de 
sua me, experimentava uma animao em nada comparvel ao que j havia sentido antes na vida.
Isso a ajudava a lidar com as nuseas intensas que vez por outra a perturbavam, como naquela manh, especificamente. Dirigiu pela Peachtree Road at Buckhead, olhando 
periodicamente para o mapa que Spencer lhe enviara via fax no dia anterior. Ento, pegou a alameda que conduziria  casa dos Lockhart. Parou em um sinal fechado 
e observou a placa da rua onde magnficas casas pareciam estar lhe observando.
Virarei na ltima rua? Sim, concluiu ao dar mais uma olhadela no mapa.
Dirigiu por mais uns poucos minutos at ver-se diante de um porto muito alto. O guarda lhe fez um sinal, abriu o porto e ela conduziu o carro por um caminho ladeado 
por imensas rvores.
Em outra ocasio, poderia ter apreciado a linda entrada da residncia, mas no estava se sentindo em condies de concentrar-se em nada alm de seu deplorvel estado 
de sade.
Estacionou em um local que, presumiu, fosse um pequeno estacionamento na lateral da casa. Ao descer do carro, viu Spencer caminhando em sua direo, mais austero 
do que nunca em terno e gravata. Sentiu-se mais indisposta ainda. Por algum motivo, havia presumido que ele no estaria ali.
 Bom dia, srta. Fairchild.
Forou-se a sorrir e retornar a saudao de modo gentil, consciente de que haviam retornado a um tratamento formal.
        Sr. Lockhart.
Sentia-se zonza e suava frio.
        Eu vi... o anncio no jornal de domingo  murmurou, inconscientemente levando a mo  garganta e ajeitando o colarinho da blusa de seda creme.
        Sim. Charlotte detestou a fotografia.
Spencer no parecia estar mais entusiasmado nesse dia do que quando lhe anunciara o noivado. Fez uma pausa, observando-a, srio.
        Eu no havia lhe pedido... mas eu... ns ficamos pensando se voc poderia cuidar de nosso casamento. Oh, Deus! Voc est bem?
O ar frio da primavera fazia com que ela se sentisse sufocada. Mas as palavras que acabara de ouvir foraram-na a se inclinar para buscar apoio no carro.
        Eu... apenas no estou me sentindo muito bem esta manh.
Franzindo a testa, Spencer imediatamente colocou o brao ao redor de seus ombros e conduziu-a para o interior da casa.
        Voc est com uma aparncia terrvel. Pegou um resfriado forte?
Ela deu de ombros, ento respirou profundamente, lutando para manter-se controlada at que alcanassem a residncia. Seus joelhos cada vez ficavam mais fracos.
No instante em que passou pela porta, sussurrou:
        Eu poderia usar o toalete?
Brianna sentiu-se muito melhor depois de lavar o rosto com gua fria, mas sua aparncia com certeza no estava boa. Apoiou-se na pia e observou seu reflexo no espelho, 
pensando se aquela mulher plida, com fantasmagricas olheiras, poderia ser a Brianna de sempre.
Certamente no. Uma outra pessoa talvez. Tentando manter as mos firmes, pegou o batom e o blush da bolsa e tentou melhorar sua aparncia antes que assustasse algum. 
Isso se j no tivesse feito tal estrago. Spencer parecera horrorizado minutos atrs.
Conseguiu tirar a maior parte da sujeira que maculara sua blusa quando se encostara no carro. Ento, respirando profundamente, saiu do banheiro e viu-se frente a 
frente com uma mulher de idade usando um lindo terninho de um rosa-plido. O cabelo curto estava impecavelmente arrumado e os olhos azuis, dos quais emanava preocupao 
e gentileza, eram muito bonitos.
        Voc est bem, querida?  a mulher indagou em tom de voz muito gracioso.
Conforme Spencer fizera cinco minutos atrs, ela imediatamente passou o brao ao redor do corpo de Brianna alcanando apenas, entretanto, a regio prxima  sua 
cintura.
        Acho que esta no  a maneira mais adequada para se comportar em uma visita, principalmente em se tratando da primeira vez.
A mulher fez um meneio com a cabea e sorriu, muito gentil.
        Oh, nem pense mais nisto, srta. Fairchild  murmurou, guiando-a em direo a uma porta.  Sou Edwina Lockhart, a propsito, se voc ainda no deduziu.
        Eu j havia deduzido  murmurou e aventurou-se a sorrir com mais segurana, comeando novamente a se sentir viva.
        Vamos nos sentar e conversar antes de darmos uma volta pela casa. Voc no parece estar bem o bastante ainda.
A sra. Lockhart conduziu Brianna para o que parecia ser uma biblioteca. Havia paredes repletas de livros de diversos tamanhos e encadernaes. Duas paredes estavam 
livres e pintadas de um tom claro de amarelo.
Trs janelas deixavam a luminosidade entrar e em uma das poltronas havia um gato persa branco cujos olhos eram do mesmo azul vvido dos da dona da casa, Brianna 
percebeu. Bem como de Spencer.
Sente-se  a mulher falou gentilmente, fazendo um gesto em direo a um sof de couro branco.  Gostaria de uma xcara de ch?
Seria maravilhoso. Obrigada.
Observou a sra. Lockhart falar de um interfone ajustado  parede e ento sentar-se do lado oposto ao seu.
        Spencer est fazendo algumas ligaes na sala ao lado, caso voc esteja se perguntando para onde ele foi. Estar aqui mais tarde. Disse que gostaria que 
cuidasse do casamento dele tambm.
Brianna sentiu-se enrubescer ante o olhar fixo em seu rosto.
        Na verdade, ainda no tive oportunidade de falar sobre isso com ele  Brianna falou, baixando o olhar para as prprias mos.
Como achasse melhor mudar de assunto, comentou sobre o tamanho da casa e sua capacidade para abrigar os convidados da cerimnia. Porm, enquanto sorvia o ch trazido 
por uma empregada", Brianna percebeu que novamente estava sendo estudada. Sem se embaraar, indagou:
        O que foi, sra. Lockhart?
        Oh, nada! E por favor pode me chamar de Edwina. Quando ficar velha ver como a mente toma suas prprias direes sem nos consultar.
Inclinou-se e estendeu-lhe a xcara de ch.
        Pode acreditar  Brianna falou rindo.  A idade no tem nada a ver com isto. Fao o mesmo o tempo todo.
        E o que voc achou da minha garotinha?
        Oh, Kelly  adorvel! Mal posso esperar at que ela veja os esboos que fiz para seu vestido. Ainda so preliminares.
        Voc os trouxe consigo?
        Ah... No. Kelly me fez jurar que no os mostraria a ningum at que ela aprovasse.
Sra. Lockhart bebericou do ch.
        Est absolutamente correta. A ltima coisa de que Kelly precisa  que sua velha me se intrometa.
Sentou-se mais ao canto do sof.
        Suponho que ela tenha lhe dito que no gostaria de um casamento muito grandioso.
        Ela disse, mas mencionou cerca de mil convidados.
        E o que voc falou?
        Que eu tornaria tudo mais leve possvel para ela. Eu tomarei conta de todo o trabalho.
A me de Spencer fitou Brianna por um longo momento e ento riu novamente.
Agora eu vejo sobre o que Spencer estava falando... E a est ele. Oh... Voc se sente bem para caminhar, srta. Fairchild?
Sim  Brianna apressou-se em responder, mantendo o olhar na anfitri.  Estou bem agora.
Sobre o que Spencer falara?
Desejando esquecer o comentrio da senhora acerca do filho, preferiu pensar em como, a cada dia, tornava-se mais difcil se levantar de um sof. Como seria dentro 
de alguns meses?
A sra. Lockhart insistira para que Spencer pessoalmente mostrasse a Brianna a casa e os jardins, dizendo que tinha alguns compromissos.
No houve como fazer objees sem levantar suspeitas. Mas o ar pesado entre os dois enquanto caminhavam era assustador, a despeito dos melhores esforos que faziam 
para manter a conversa em tom natural.
        Sua casa  incrvel  disse Brianna por fim.   uma das casas mais lindas que j vi. At mesmo para Buckhead.
Ele lhe deu um breve olhar.
        Obrigado. Embora eu ache que no merea crdito algum por isto. Kelly e eu somos a terceira gerao a morar na casa.
Estavam em p no meio de um dos jardins. Ela fez um gesto em direo ao gramado que se esgueirava rumo ao
leste.
        Eu gostaria de arrumar algumas tendas por ali. O que acha?
Virou-se para fitar Spencer, afastando uma mecha de cabelos que lhe atrapalhava a viso. Ele devia estar observando-a, porque rapidamente desviou o olhar e brincou 
com as chaves que tinha no bolso.
Voc tem carta branca para fazer o que achar melhor. Conhece muito sobre o assunto.
        Eu sei... Apenas queria sua opinio.
        Mas no tenho uma opinio formada. E no  o meu casamento.
Brianna fez um gesto de assentimento, ignorando a sbita dor no corao.
        No.  Respirando fortemente, indagou:  E quanto ao seu? Planeja que ocorra aqui tambm?
        Acho que sim. Voc o organizar?
        Se quiser...  respondeu, pensando em como sua voz podia estar to firme enquanto se sentia em meio a tamanha aflio.
        Bem, posso lhe garantir que Charlotte preferiria morrer a ter seu casamento, at mesmo remotamente, semelhante ao de minha irm. Acredite em mim, ela ir 
desejar algo completamente diferente.
        Posso compreender. Eu provavelmente pensaria da mesma maneira, dadas as circunstncias  acrescentou, chutando uma pedrinha para longe.
Caminharam em silncio por alguns instantes. Brianna comeava a se acostumar com a constante dor que lhe afligia o peito toda vez que via, ou at mesmo pensava, 
em Spencer.
Mesmo que no existisse Charlotte, no haveria como o relacionamento dos dois ir adiante, j que sabia estar grvida. Mas no eram apenas esses os empecilhos. Que 
espcie de relacionamento eles poderiam ter, de qualquer maneira? E por que Brianna simplesmente no aceitava a situao e o esquecia? Esquecer Spencer?
Talvez se continuassem a conversar o sofrimento fosse amansando.
        Charlotte precisa o quanto antes ir at a loja para decidir como ser seu vestido. A finalizao do desenho e a elaborao da roupa costumam demandar oito 
semanas.
        Sim,  claro. Eu lhe direi para telefonar a voc.
Brianna respirou profundamente, j incapaz de tolerar a maneira com que a voz dele se alterava sempre que falava do casamento.
        Spencer, por que vai se casar com Charlotte?
Fitou-a com tanta intensidade que Brianna deu um passo para trs.
        E por que acha que isso  da sua conta?
Ela afastou-se mais e procurou ignorar o tremor dos joelhos.
        Admito que no  da minha conta. Mas fico magoada em v-lo assim.
Spencer desviou o olhar. Sentindo que nada mais tinha a perder, Brianna persistiu:
        H apenas trs semanas, voc deixou muito claro que detestava a ideia de casar-se. E a est voc, prestes a se contradizer!
Fechou os olhos brevemente e tomou coragem para prosseguir.
        Pediu-me para cuidar dos preparativos para o casamento. Pois saiba que no me sinto realmente confortvel em trabalhar para uma unio na qual um dos participantes 
sente-se to ambivalente...
        Por favor...
A expresso de Spencer era muito dura.
        Voc no espera que eu acredite nisto, espera? Nenhum de seus clientes mostrou certo antagonismo em relao a casar-se?
Brianna subitamente sentiu-se fraca e sentou-se em um banco de pedra, as mos sobre o colo.
        E claro que tive clientes pouco confortveis com a ideia. Mas no  o que est acontecendo aqui... e voc sabe disto.  bvio que ir casar-se com uma mulher 
que no ama.
Spencer permaneceu de p, o olhar fixo em algum ponto a dezenas de metros dali.
        E o que voc sabe a respeito do amor, srta. Fairchild?  Spencer finalmente perguntou, a voz muito branda.
        Mais do que voc  respondeu prontamente, j no se importando que seus sentimentos deixassem de ficar velados.
Spencer fechou os olhos, dava-se para notar a tenso que o dominava.
Apenas imaginei que o amor seria a nica razo para faz-lo se casar, Spencer. O que est acontecendo, simplesmente, no faz qualquer sentido.
Muitos segundos se passaram. Quando finalmente ele falou, suas palavras pareciam desprovidas de emoo.
        Estarei fora daqui pelas prximas seis semanas. Irei para o Japo. Voc poder conversar diretamente com Kelly ou minha me durante minha ausncia.
        Oh... entendo.
Brianna ficou em p, ajeitando a saia.
        Fique tranquilo, assim que tiver elaborado alguns planos, eles sero enviados para sua me.
Levantara-se to rapidamente que ficou zonza aps dar alguns poucos passos. Apoiou-se em um pilar de pedra do ptio para recobrar o equilbrio. Todas as emoes 
que ela ferrenhamente tentara manter sob controle corriam livres como cavalos selvagens.
        E, por favor, diga a Charlotte para entrar em contato comigo o quanto antes, assim poderemos dar incio aos... preparativos.
Afastou-se do pilar e rapidamente se distanciou de Spencer. Queria alcanar a casa, pegar suas coisas e partir.
Mas o gramado parecia ondular diante de seus olhos e Brianna percebeu que iria desmaiar. Deu uns passos para frente, tentou buscar apoio no ar e ento sentiu os 
braos de Spencer trazerem-na de volta  segurana.
        Oh, Brianna...
"Por favor, nada de gentilezas. Eu no poderei lidar com elas", pensou, sentindo o corao bater fortemente. Tentou respirar profundamente e desejou muito que suas 
ideias aclarassem.
Com uma fora que julgava no possuir, conseguiu livrar-se dos braos de Spencer.
        No!
Encontrou o olhar angustiado do homem amado apenas por um segundo, ento virou-se e caminhou em direo  casa, rezando ardentemente para que ele tivesse ao menos 
o bom senso de no segui-la.
Spencer sentia-se sufocado pela prpria estupidez. Olhava atravs da janela da biblioteca o carro de Brianna afastar-se.
         uma boa garota, querido  sua me lhe assegurou, tocando seu brao.
Ele tentou no parecer mais preocupado do que qualquer outra pessoa estaria.
        Sim, mas claramente no estava passando bem. E se tiver mais um acesso de tontura no meio do trnsito?
        Spence... O que aconteceu no jardim?
Fitou a me e ento o horizonte.
        Nada.
        Voc por acaso percebe que est com uma aparncia muito pior do que a daquela senhorita?
        Ela... apenas me deixou assustado, isto  tudo  respondeu baixinho.  No estou acostumado a ver moas ficando brancas e quase desmaiando.
        No, acho que no  Edwina respondeu, apoiando-se contra o encosto de um dos sofs e cruzando os braos.  Voc no est lidando muito bem com esta situao, 
sabia?
        No fao ideia do que esteja falando, mame.
        Sim, voc faz. Ir se casar com a garota errada.
Ele abaixou a cabea. Ento percebeu que no poderia fugir para sempre do olhar frio da me.
        Mas que absurdo! Charlotte ser uma esposa perfeita.
        Assim diz voc.
Permaneceram se encarando durante segundos que pareceram eternos. Spencer estava enervado pela estranha expresso do olhar materno. Por fim, a senhora levantou 
as mos em sinal de desalento.
        Est bem. Acredite naquilo que poder faz-lo feliz. E a srta. Fairchild ficar bem, filho. Apenas no estava se sentindo bem. Agora diga-me, pretende trabalhar 
hoje ou no?
        Sim. Tenho centenas de coisas a resolver antes de partir para Tquio.
Atravessou a sala e pegou a maleta.
        Oua, direi a Charlotte para entrar em contato com Bria... quero dizer, srta. Fairchild, a respeito do vestido de noiva. Gostaria que a ajudasse em minha 
ausncia. A senhora sabe, Charlotte no conseguiria lidar sozinha com tantas atribuies ao mesmo tempo.
Edwina meneou a cabea.
 Sabe o que penso a respeito, filho  foi seu comentrio.  Alis, esqueci-me de dizer que achei a srta. Fairchild muito simptica. Mas no compreendi o porqu 
de tanta preocupao com ela.
Spencer conhecia muito bem a me para saber que havia um segundo sentido naquelas palavras, por isso resolveu no prolongar o assunto. Deu um beijo em seu rosto 
e partiu.
Spencer sentou-se em sua cadeira de couro atrs da escrivaninha. Suas mos estavam cruzadas na nuca.
Felizmente sua conversa com Charlotte fora breve como sempre. Sua necessidade em afastar-se durante seis semanas no agradara a noiva.
No gostava de admitir, mas desde que ficaram noivos ela se tornara uma pessoa exigente e muito aborrecedora. Nervosa com o casamento, achava ele. Esperava que fosse 
isso.
Pelo menos conseguira arrancar da moa a promessa de que ligaria para srta. Fairchild imediatamente para marcar a primeira reunio. Deu uma olhada no relgio de 
pulso.
Era surpreendente, mas conseguira deixar tudo mais ou menos ajeitado uma hora antes de ter de sair rumo ao aeroporto. Aps uma ltima olhada, levantou-se da cadeira 
e caminhou em direo ao bar, com a inteno de servir-se de uma boa dose de martni seco. Uma vez l, entretanto, perdeu a vontade.
Riu ante a prpria atitude ao recolocar a garrafa ao lado das outras. Ento mirou-se no espelho que ornava o fundo do bar e viu a expresso de seus olhos.
Isso o fez lembrar-se do olhar amedrontado de Brianna poucas horas atrs no jardim. E de como aqueles olhos haviam lhe pedido para no... No o qu?
Necessitando mudar o rumo dos pensamentos mais uma vez, fixou o olhar em um copo.
Gostasse ou no, tinha de admitir que sua me estava certa. No estava lidando com a situao a contento.
Oh, Charlotte seria uma esposa perfeitamente adequada mas, como todos viviam lhe repetindo, no a amava. E tambm jamais amaria, no da maneira como as pessoas 
usualmente encaravam esse sentimento.
Era esquisito pensar assim. At algumas semanas atrs, nem se julgava capaz de amar uma pessoa.
A constatao fez sua mente migrar para uma regio desconfortvel.
Estaria ele apaixonado por Brianna Fairchild? Seria por isso que seu lindo rosto, e no o de Charlotte, vivesse invadindo seus pensamentos?
Por que ansiava por toc-la, peg-la nos braos e lhe dizer que nunca mais estaria sozinha?
"Voc no acredita em amor, lembra-se?", pensou confuso. Preparou um drinque, bebericou um pouco, abandonou-o e voltou  escrivaninha.
"E certamente tambm no acredita em amor  primeira vista", complementou mentalmente.
Mas foi exatamente isso que aconteceu, no foi? 
No! 
Sim!
Brianna Fairchild possua a irresistvel combinao de elegncia e fogo, um charme jamais afetado por qualquer-situao inusitada e uma coragem repleta de alegria 
e exuberncia. Mostrou-se tambm dona de uma desarmante honestidade e um maravilhoso senso de humor.
Por Deus! Ele bem que tentou, mas no teve qualquer chance de escapar.
Abriu a maleta para colocar papis que precisaria usar na viagem. Balanava a cabea vigorosamente de um lado a outro em um intil gesto para negar a recente descoberta.
Era difcil de admitir, mas cometeria um grave erro se se casasse com Charlotte, embora amando Brianna. Porm, como desonrar um compromisso de mais de um ano? Sim, 
era verdade que nada lhe prometera, mas ento, por que aceitara o jogo da noiva, metendo-se em um compromisso que no poderia assumir? Talvez porque fose mais seguro, 
pois com ela, sentia-se dono da situao. Muito diferente de como se sentia com Brianna, pois a seu lado tornava-se um adolescente inseguro e... apaixonado.
Pegou o palet e o vestiu. Felizmente haveria a viagem para o Japo, o que lhe daria algum tempo longe da influncia de Brianna.
Longe dos olhos, longe do corao, algum j havia dito. Quanto a Charlotte, talvez a ausncia fizesse com que seu corao se afeioasse mais  moa.
E que Deus o ajudasse se as duas acabassem se enfrentando durante sua ausncia!

CAPITULO VI

Zo entrou no escritrio de Brianna.
         Voc precisa ver Clarice vestida de noiva. Est deslumbrante!
         mesmo? Est bem, irei em breve.
Depois que Zo partiu, Brianna deu mais uma mordida na bolacha de gua e sal. Depois que todas as sesses de indisposio e enjoos passassem, nunca mais iria comer 
aquele tipo de bolacha.
Ajeitou a roupa e rumou para o provador. Sorriu amplamente no instante que viu a noiva, sua contadora desde que abrira o negcio.
        Puxa! Zo no estava brincando. Voc est deslumbrante mesmo!
Clarice retribuiu o sorriso, os dentes muito brancos contrastando com a pele amorenada.
        Soube que voc far os preparativos para o casamento de Lockhart com a Westwood. As finanas da loja vo gostar muito  comentou, enquanto tirava o vestido.
        Sim... Ser uma festa e tanto... Caso eu consiga fazer com que a noiva se decida em algum aspecto.
Brianna lembrou-se das dificuldades que Charlotte estava lhe criando. Seria proposital? No gostar de nenhum dos incontveis vestidos que lhe mostrara e escolher 
um vestido exposto em uma revista parisiense que valia mais de vinte mil dlares chegava a ser uma afronta. Mas o que fazer? Brianna deveria ser, antes de tudo, 
profissional.
Clarice riu mais uma vez enquanto caminhavam para o escritrio e discutiam os ltimos detalhes de seu casamento.
A meio caminho do hall, Zoe as interceptou com uma expresso de pesar no rosto.
        Ela est aqui...
Clarice ergueu as sobrancelhas para Brianna.
        Deixe-me adivinhar. Charlotte Westwood.
        No apenas Charlotte  Zo murmurou , a me dela tambm veio.
Brianna suspirou e ps a mo no brao de Clarice.
        Para sua prpria segurana, sugiro que evacue o local imediatamente.
        Oh, no pode ser to ruim assim...
        Oh, pode sim!  murmurou Zo, com uma careta.  Ou ainda pior.
Zo acompanhou Clarice at a porta enquanto Brianna, sorrindo, cumprimentava Charlotte e a me. As reunies haviam sido difceis o bastante quando apenas Charlotte 
estivera presente. Quando sua me a acompanhava, tornavam-se um verdadeiro pesadelo.
A sra. Westwood era uma verso mais velha e mais esperta de Charlotte.
        Bem, j no era sem tempo, srta. Fairchild  a sra. Westwood murmurou com um sorriso grotesco.  Voc sabe que no  de bom tom deixar um cliente esperando, 
querida!
Brianna sentiu o incio de uma dor de cabea.
        Eu sinto tanto, sra. Westwood, srta. Westwood... Mas estava com outra noiva. Alm do mais, as senhoras esto adiantadas. Nossa reunio est marcada para 
a uma e meia.
        Voc fez algum progresso em conseguir aquele vestido para mim?  Charlotte interrompeu, nem se importando com o comentrio da dona da loja e fitando as 
prprias unhas.
Brianna indicou o caminho para a sala de reunies.
        Vamos para um local mais confortvel, est bem?
Zo lanou a Brianna um olhar de comiserao. Ao entrarem no escritrio, resolveu finalmente responder a pergunta feita por Charlotte.
        Sim, eu recebi um fax de Paris ontem, na verdade. Se ns fizermos o pedido no prazo de uma semana, podero produzir a roupa dentro do esperado. Mas temo 
que o vestido tenha de ser completamente pago no momento em que eu fizer o pedido.
        O qu?!  a sra. Westwood perguntou, pasmada, levando a mo  boca, como se estivesse sendo assaltada.  Por que eu teria de pagar por algo antes de receb-lo?
        Esse detalhe tambm me pareceu um tanto estranho Charlotte acrescentou, o lindo narizinho erguido em sinal de arrogncia.
Brianna respirou profundamente e ento voltou a sorrir.
        Temo lhes dizer que s poderei encomendar o vestido dessa maneira. A roupa ser feita exclusivamente para Charlotte e no poder ser devolvida. Sob hiptese 
alguma. 
Ante as expresses indignadas das duas mulheres, Brianna continuou:
        No caso de voc no querer ou no poder usar o vestido, a possibilidade de vend-lo a outra cliente  mnima. Tenho certeza de que compreende que no posso 
absorver a quantia de vinte mil dlares referente a um vestido de noiva em meu inventrio.
As duas mulheres a fitaram com olhos arregalados como se tivesse lhes pedido para ficarem nuas.
Subitamente Brianna sentiu vontade de rir. Diante de si estava Cinderela e sua me, cujas nicas misses na vida eram intimidar todos que se interpusessem em seu 
caminho.
Pois nem se importava se iriam ou no fazer o vestido com ela. Se no gostavam da maneira como conduzia seu negcio, que fossem contratar os servios de outra pessoa.
Isso se conseguissem encontrar outro na cidade que as aceitasse.
Lentamente sorriu e acomodou-se melhor na poltrona, batendo com a caneta levemente na mesa  sua frente. Sentia-se como uma jogadora de pquer em franca vantagem.
        Ento, senhoras, os fatos so estes. Eu adoraria providenciar o vestido para voc, Charlotte, mas uma vez passado o pedido para Paris, a roupa ter de ser 
sua.
Inevitavelmente.
As duas trocaram olhares.
Suspirando, Charlotte mordeu o lbio e depois de alguns instantes falou:
        Sabe, no tenho certeza se eu gosto tanto assim daquele vestido. Todo aquele tule... Acho que aquilo poder me engordar, concorda?  Ento, com um sorriso 
brilhante que fez Brianna ter vontade de esbofete-la, acrescentou:
 Bem, isto significa que teremos de comear tudo de novo. Voc recebeu alguma coisa nova desde a ltima vez em que eu vi a coleo?
        Sinto muito, srta. Westwood, mas s temos modelos novos duas vezes por ano, em dezembro e junho.
Algo que ela j havia dito a Charlotte pelo menos trs vezes.
        Acredito que j tenha visto tudo que possumos. Mas posso desenhar-algo especfico para voc...
Talvez eu pudesse voltar a Nova York...
Brianna perdeu a pacincia.
        Caso se lembre, srta. Westwood, fui a todas as lojas com Kelly h menos de um ms. No h nada l que eu no possa providenciar por aqui. Nada, a propsito, 
importante o bastante para o tipo de casamento que voc ter. E nenhum dos estabelecimentos aceita pedidos para os prximos quatro meses.
Mais olhares foram trocados entre me e filha.
        Est bem, srta. Fairchild, faa  sua maneira. Acho que aceitarei que desenhe algo especialmente para mim.
Brianna no se lembrava de ter desejado agredir algum, mas naquele momento facilmente teria estapeado Charlotte Westwood sem um pingo de remorso.
No fosse por Spencer, teria rasgado o contrato, devolvido o dinheiro das Westwood e acabado com a tortura. Mas, a despeito da dor que sentia no peito cada vez que 
imaginava Spencer casando-se com aquela moa arrogante, no podia quebrar sua promessa de cuidar do casamento dele.
        Tenho certeza de que poderemos encontrar algo que a satisfaa muito  Brianna falou, pegando um bloco em branco.  Penso em um vestido justo, severo... 
O que acha?
Conformada, Brianna mentalmente procurou lembrar-se de pedir  costureira que deixasse dois ou trs alfinetes no vestido antes de Charlotte experiment-lo.
Brianna j supervisionara cerca de duas dzias de casamentos no Country Club de Buckhead, onde Charlotte decidira fazer a recepo. Era uma instituio, e a famlia 
dela provavelmente era membro desde a inaugurao.
Os contatos comerciais de Brianna com o clube eram excelentes, j que nunca solicitou nada fora dos padres aceitos pela instituio e sempre providenciou tudo 
o que porventura pudesse causar trabalho extra aos responsveis pelos sales.
Mas quando telefonou para confirmar a reserva do maior salo para o casamento de Charlotte, o gerente ficou em silncio.
O que foi, Phil?
O homem suspirou.
        Oh, nada na verdade! Vamos dizer que, se eu for reservar o salo para este casamento, s o farei porque voc est envolvida na organizao.
        Por Deus, aquela jovem realmente deixa um rastro de destruio por onde passa, no  mesmo?
Ambos riram do comentrio. Mais alguns acertos e Brianna desligou o aparelho. Assim que o fez, o telefone tocou. Com o corao estranhamente aos saltos, atendeu.
        Al?
        Brianna?
Ela respirou profundamente. A voz era inconfundvel, mesmo a milhas e milhas de distncia.
Sr. Lockhart? O que... o que posso fazer para ajud-lo?
Um vento frio entrou pela janela aberta.
        Eu apenas telefonei para saber como as coisas esto indo.
A palma das mos de Brianna estavam midas.
        Tudo sob controle.
        Quero dizer... Voc est se sentindo melhor?
Havia preocupao naquela voz.
        Oh, sim... Obrigada.
        Era um resfriado muito forte?
        No. Provavelmente algo que eu comi.
        Oh.
Houve uma pausa.
        Voc tem ido  casa de minha me desde... desde que eu parti?
        Sim, algumas vezes. A sra. Lockhart sempre faz questo de marcar os encontros para a hora do almoo a fim de que possa me alimentar. E to gentil! A propsito, 
terei outra reunio com ela depois de amanh.
        Parece que mame a adotou.
        Pois , acho que sim. Mas eu no me importo de maneira alguma.
        Ento voc gosta da sra. Lockhart?
Brianna no podia acreditar que estavam tendo aquela conversa. As palavras pareciam incuas, mas ambos estavam mostrando dificuldade em mudar de assunto.
        Gosto demais. De fato, ela me faz lembrar de minha me.
O silncio que se seguiu foi to longo que Brianna pensou que haviam perdido contato.
Sr. Lockhart?
Quando ele finalmente respondeu, pde sentir o carinho naquela voz que vinha da outra parte do mundo.
Oh, sim. Tem falado com Kelly?
Brianna respondeu a pergunta e mais outras, mas seu corao lhe dizia que o dilogo era apenas um pretexto para se manterem em contato.
Ouviu-se um chamado na linha, indicando que outra ligao aguardava ser atendida.
        Droga, terei de atender. O hotel me avisou que h outra ligao me aguardando. Brianna?
        Sim?
        Apenas... cuide-se.
Voc tambm  murmurou ela.
Mas Spencer j havia desligado.
Brianna ficou observando o telefone, a testa franzida. Lgrimas caam por seu rosto e ela meneou a cabea na tentativa de se acalmar.
"Por qu, por que est fazendo isso comigo?", teve vontade de gritar.
Aquilo no ia funcionar. Limpando os olhos com um leno de papel, desejou haver alguma maneira de poder livrar-se de organizar o casamento de Charlotte e Spencer.
E se possvel tambm esquivar-se do de Kelly. No havia modo de ignorar a agonia que sentia todas as vezes em que tinha contato com Spencer.
Mas no havia opo, ela sabia. Isso significava que teria de lidar com tudo isso da melhor maneira que pudesse.
Suspirando, pegou alguns pedidos que precisavam ser efetuados, mas no conseguiu se concentrar em uma s linha. Somente depois de passados alguns minutos pde ler 
o que estava escrito em um dos papis e compreender o sentido das palavras.
Mais algum tempo se passou at que Brianna se desse conta de que em todo tempo que haviam conversado, Spencer nem sequer mencionara o nome da noiva.
Spencer atendeu a ligao que interrompera sua conversa com Brianna to rapidamente quanto possvel, ento acomodou-se melhor na poltrona com um gemido.
A presena dela era to real, mesmo  distncia. A tal ponto que seus dedos pareciam ter tocado aquela pele macia. Podia sentir a fragrncia doce e floral apesar 
de estar em um impessoal e frio quarto de hotel.
Se fechasse os olhos, poderia observar a imagem do lindo rosto sardento, visualizar o sorriso mgico, os luminosos olhos castanho-esverdeados e os cabelos louros 
to brilhantes e cheios de vida.
Isso no era nada bom, criava-lhe confuso nos pensamentos a ponto de cometer loucuras.
No poderia casar-se com Charlotte.
Foi em direo  minscula cozinha pegar uma xcara de caf. Tinha a distinta sensao de que precisava mudar sua vida.
 Nada pode ser pior do que uma mulher desprezada  refletiu.
Charlotte no aceitaria a novidade passivamente.
Mas isso era apenas parte de seu dilema. A considerar suas prprias atitudes, era possvel que fosse rejeitado por Brianna. Mesmo assim, sabia ter existido algo 
diferente naquela voz... e que lhe dava muita esperana.
Esperana! Nunca pensou que viveria para ver o dia que teria esperana de que uma mulher o amasse. Mas tambm jamais imaginou que um dia estaria to apaixonado assim.
Brianna estava encantada. Encontrava-se em um dos inmeros jardins dos Lockhart.
        No direi s pobres florzinhas de meu jardim sobre o que estou vendo. Se fizer isso, tenho certeza de que nenhuma delas voltar a florir.
        Ah... Ento voc tambm  amante das flores?  indagou Edwina, tocando-lhe o brao na altura do cotovelo para que voltassem a caminhar em direo  casa.
Uma brisa fresca assanhou os cabelos de Brianna.
        A loja demanda muito trabalho, ento tenho pouco tempo para me dedicar a outra coisa. Mas, sim, adoro jardinagem. Plantei muitas flores tambm. Bem, para 
mim, parecem ser muitas, embora este ano eu no possa suportar o perfume de narcisos. Tive de cort-los.
Aps diversos segundos, ela sentiu mais um toque suave em seu cotovelo.
: Eu tambm no podia aguentar o perfume de narcisos quando estava grvida.
Brianna estacou e baixou o olhar, incapaz de se mover.
        Ento... eu tinha razo  murmurou Edwina gentilmente.
Brianna sentiu os joelhos to trmulos que afastou-se da mulher e se apoiou em um banco de pedra. Conseguiu sentar-se antes que desabasse no cho. No protestou 
quando Edwina acomodou-se a seu lado.
        Como percebeu?
        Oh, por favor, querida. No foi to difcil assim descobrir. Especialmente ao notar que voc tem os mesmos sintomas que eu tive em ambas as vezes em que 
fiquei grvida. Eu sabia que no era um simples resfriado que a fez passar to mal naquela manh. E agora que seu apetite retornou, no consegue parar de comer.
Brianna ficou sentada muda. Edwina colocou a mo em seu brao.
        Sinto muito. Acho que no devia ter aberto minha grande boca. Mas voc parecia precisar de uma amiga. Este no  o melhor momento para uma mulher ficar 
sozinha.
Brianna balanou levemente a cabea, ento conteve um soluo. No importava para essa mulher como ela havia ficado grvida.
Lgrimas corriam abundantemente por seu rosto e ela sucumbiu feito um beb nos braos de Edwina, deixando a senhora a consolar.
Passaram-se diversos minutos at que as lgrimas cessaram. Finalmente, Brianna aprumou-se e pegou um leno de papel do bolso.
        Quer conversar a respeito?  perguntou Edwina.
Fez um gesto afirmativo com a cabea.
        Esta criana tem um pai, querida. Ele j sabe?
Brianna olhou para o jardim, mas nada via.
        No.
        E... voc no vai dizer a ele?
        No. No acho que fosse ficar feliz ou at mesmo interessado nas novidades.  Suspirando, continuou:  Na verdade, no h nada sobre o que conversar. O 
que est feito est feito, e eu sou a nica pessoa que poder lidar com isto.
Quando por fim ela se virou para fitar Edwina, havia um brilho especial e maternal no olhar carinhoso.
Tenho s uma coisa a lhe pedir  disse Brianna.
        Pode dizer  foi a resposta imediata.
Pegou a mo da senhora entre as suas.
        Por favor, no diga nada a Spencer.

CAPITULO VII

Spencer despiu as roupas que estivera usando durante quatorze horas seguidas nos trajetos realizados em txis, avies e aeroportos. Jogou as peas sobre a cama e 
tomou um banho rpido.
Decidido a tomar o que considerava o ato mais importante de sua vida, ele nem se deu tempo de ouvir os recados em sua secretria eletrnica. Dentro de seu carro, 
lembrou-se da surpresa que teve ao deparar-se com Charlotte no aeroporto. Nunca ela fizera isso, muito menos da forma amorosa como agira.
A caminho do apartamento dela, pensou em transmitir-lhe sua deciso, mas no teve coragem. Decidiu que no era o momento adequado.
Estacionou em frente  casa de Brianna, pensando exa-tamente como iria revelar seus sentimentos. Passou a mo pelos cabelos e suspirou.
Brianna no poderia mais postergar. Os mantimentos no apareceriam como por milagre  sua porta e o modo como ela estava se alimentando naqueles dias no era nada 
adequado. No poderia passar a alimentar-se de manteiga de amendoim e azeitonas como costumava fazer quando era estudante.
Trocou de roupa, escolhendo seu vestido preferido, de um tom suave de violeta. Desceu a escada dos fundos, seus passos quase inaudveis devido  sapatilha. Lembrou-se 
de que havia estacionado bem defronte  loja, por isso atravessou a sala de espera, abrindo a porta frontal e fechando-a.
Brianna?
Levou a mo ao peito ao se virar para ver Spencer recostado  amurada da varanda.
O que est fazendo aqui?  perguntou, sentindo dificuldade em respirar.
Imediatamente suavizou o olhar ao notar a decepo no rosto dele.
        Sinto muito. Voc apenas me assustou. No lido muito bem com surpresas.
        No?  indagou ele, subindo os degraus e se aproximando, sorridente.
Brianna inconscientemente deu um passo para trs, tentando lidar com o pnico que lhe deixava os joelhos trmulos feito gelia.
Brianna...
Ela percebeu que mal conseguia respirar, dada sua tentativa em no desabar em lgrimas. Abruptamente olhou para o lado, apertando as chaves*do carro na mo esquerda.
        Brianna  ele repetiu.  Gostaria que jantasse comigo.
Em outras circunstncias, ela daria pulos de alegria, mas naquele instante, no esboou nenhuma reao.
        Sinto muito, mas no posso aceitar o convite de um homem comprometido.
        Oh, Brianna, no a convidaria se ainda o fosse.
Os olhos dela imediatamente se iluminaram, mas a luz logo se esvaiu ao ouvir as prximas palavras de Spencer.
Pretendo desfazer o noivado o mais breve possvel.
O que era alegria transformou-se em dio. Se ele achava
que anunciar a inteno de romper com Charlotte tornava-a uma pessoa disponvel, ele estava enganado. Brianna no era tola quele ponto. Mesmo porque no era apenas 
o noivado que a separava dele. Com frieza no olhar, mediu as palavras ao falar.
        Sinto muito, Spencer, no sei o que o fez pensar que sou uma pessoa sem compromisso.
Ele Ficou boquiaberto diante daquele argumento.
        Existe algum... em sua vida?
        De certa maneira, sim.
        Conheceu algum enquanto eu estava fora?
        No gostaria de entrar em detalhes. Simplesmente no estou... sozinha.
Pasmado, no lhe restava outra alternativa seno ir embora.
No houve "adeus". Nada.
Apenas o som da porta de um carro sendo batida e pneus fazendo um barulho ensurdecedor enquanto ele se afastava.
Naquela noite. Contaria a Charlotte naquela noite.
Spencer encaminhou-se para o apartamento de sua noiva, a sinfonia de Tchaikovsky que tocava no rdio, fazia com que se sentisse ainda mais melanclico.
No importava que a mulher que finalmente descobrira amar o tivesse rejeitado no dia anterior. Ainda assim precisava romper o relacionamento com Charlotte.
Havia feito reservas paua Charlotte, Kelly, Edwina e ele jantarem juntos naquela noite. A irm chegara de Nova York no incio da tarde.
Depois de cearem, Spencer pretendia levar a noiva para casa e lhe dizer sobre o rompimento.
Ainda no fazia ideia das palavras que usaria, mas sabia que tudo lhe viria  cabea no momento certo. S esperava que fosse mais bem-sucedido do que fora com Brianna.
Charlotte abriu a porta antes que ele tocasse a campainha. Novamente estava usando roupas roxas, uma cor que Spencer detestava.
        Que bom  murmurou ela, erguendo os lbios para um beijo que lhe foi dado da maneira mais rpida e descompromissada possvel.  Est adiantado. Vamos.
        Nossas reservas so para as seis horas...
        Voc me disse que Kelly veio fazer a prova do vestido de noiva.
        Sim.
        Ento poderemos nos encontrar com sua me e irm na Fairchild's.
No h necessidade. Ns as veremos no restaurante.
Charlotte pegou a bolsa da mesinha do hall.
        A srta. Fairchild me disse que eu poderia passar para ver se o esboo do meu vestido est pronto.
        Tem certeza? Pensei que ela apenas trabalhasse com hora marcada...
Rindo, Charlotte ajeitou um xale ao redor dos ombros, balanando a cabea como se Spencer simplesmente no pudesse compreender casamentos e mulheres.
        Far uma exceo para mim, querido. Voc sabe  comeou a falar enquanto fechava a porta , se eu no pressionar aquela mulher, ela no providenciar nada. 
Eu nem consigo compreender por que voc a contratou.
No havia como fazer um comentrio. Em poucas horas, a opinio de Charlotte quanto ao desempenho profissional de Brianna j no importaria. No momento, parecia-lhe 
mais prudente deix-la pensando que era dona da situao.
Agora estou ficando animada!
        Bem, deveria mesmo. S faltam trs semanas para o casamento  Brianna falou, ajeitando as mangas do vestido de Kelly.
Kelly estudou a si mesma como se no tivesse muita certeza de estar vendo o prprio reflexo. Sorriu para o espelho de trs faces e fitou Brianna.
        Sabe, se a maioria dos vestidos que existem por a se parecesse com este, eu estaria mais inclinada a us-los em vez de calas compridas.
        Sei, sei, mas voc pode se imaginar usando algo assim no metro? Acho improvvel.
        Que metro? Somente uma linda carruagem combinaria com este vestido. Esta roupa  mesmo maravilhosa!  exclamou, suspirando.
        Ento... o que acha?  Virou-se para a me, esperando sua opinio.
        Quem diria... No pensei que um dia teria oportunidade de ver minha bonequinha vestida de anjo.
Sua voz era muito suave. Pouco a pouco, a senhora foi controlando a emoo que a invadia.
        O que todos ns sabemos que ela no   complementou a me.
        Oh, mame!
        "Oh, mame!"  Edwina fez uma mmica para imitar a filha ento sorriu amplamente.  E agora, v e tire este vestido e arrume os cabelos. Tenho algumas coisas 
para discutir com Brianna.
Na ausncia da filha, Edwina ps-se a falar:
        Meu bem, no quero tomar seu tempo, mas gostaria de dizer-lhe que no aprovei a atitude tomada por meu filho.
Ento Spencer contou-lhe, pensou Brianna.
        Porm, posso lhe garantir que as intenes dele so as melhores. Reconsidere. Ele  apaixonado por voc.
Brianna levantou as mos e fez um gesto como a indicar que se sentia impotente. Rezava para conseguir conter as lgrimas. Comeava a achar que a nica coisa de que 
era capaz de fazer naqueles dias era chorar.
Nesse instante Kelly apareceu  porta.
Spence e Charlotte esto aqui.
Spencer! E Charlotte? Brianna sentiu uma dor muito forte no peito.
Edwina tirou as mos dos ombros de Brianna e deu um olhar desaprovador para a filha.
Eles deviam nos encontrar no restaurante.
Kelly deu uma espiada no hall e ento entrou na sala de vestir.
        Charlotte quer saber se Brianna j tem o desenho de seu vestido  murmurou em voz baixa, o olhar quase a pedir desculpas pela intromisso.
        Sinto muito, no houve como det-las.
"Mas voc disse que o casamento estava terminado, Spencer...", pensou Brianna desconsolada.
Forou-se a rir ante a expresso preocupada de Kelly.
        No aceito que me pressionem, mas parece que Charlotte ainda no compreendeu isto. Acho que  melhor eu ir falar com ela antes que...
Um suspiro resignado terminou a sentena por ela. As mulheres trocaram olhares de simpatia. Mas, antes que Brianna pudesse partir, Kelly gentilmente pegou-a pelo 
brao.
        Oua, por que voc no janta conosco esta noite?
        Oh, no! Acho que no...
        Vamos, querida  encorajou-a Edwina.  Isto lhe far bem.
Brianna fitou a mulher, sentindo um pnico intenso domin-la.
        Mas vocs j tm reservas...
        Bobagem! Vamos com tanta frequncia quele restaurante que certamente no haver qualquer problema em providenciarem uma cadeira extra para nossa mesa  
argumentou Kelly.
        E saiba que no aceito um no como resposta, minha filha  Edwina falou, fazendo-lhe um carinho no brao.
Brianna fitou o rosto de Edwina, certa de que a mulher perdera totalmente a razo no apenas por permitir, mas tambm por insistir que ela e seu filho estivessem 
sentados  mesma mesa para jantar.
Ento ouviu Kelly sussurrar:
Se eu fosse voc, nem pensaria em discutir.
Brianna cerrou os pulsos quando entrou na sala de espera e os viu. Estava completamente perturbada. Talvez fossem os hormnios. Eles novamente!
A situao estava insustentvel e Brianna no poderia se expor tanto diante de todos.
Apesar da dor no corao, forou-se a dar ateno a Charlotte.
        Srta. Westwood  falou em voz controlada, desejando que o rubor amansasse.  Kelly disse que voc tinha uma pergunta a me fazer.
        Eu apenas estava querendo saber se o esboo do meu vestido est pronto.
Brianna conseguiu sorrir.
        Temo que ainda no. Na prxima tera-feira, no foi esta data que combinamos?
A testa perfeita de Charlotte se franziu.
        Sim, minha reunio foi marcada para tera-feira, eu apenas pensei que...
        E eu lhe prometi que tudo estaria pronto na ocasio. Sua me tambm estar presente?
Nem ouviu a resposta que Charlotte lhe deu. Estava concentrada em observar o olhar glacial que Spencer dedicava  noiva e o sorriso nervoso que ele recebia em resposta.
Brianna j estava arrependida de ter aceitado o convite para o jantar. Em seu carro, imaginou como seria torturante aquela noite. Ao chegarem ao restaurante, sentou-se 
entre as duas Lockhart.
Como aplicada aluna de psicologia, conseguiu entreter me e filha a contento, e conseqentemente, a si mesma. Assim, seu sofrimento era menor sempre que via o casal 
diante de si.
Mas em um de seus movimentos de cabea, pde notar que Spencer a fitava.
O olhar era msculo e perscrutador, reparou, apesar da penumbra reinante devido  tnue iluminao proporcionada pelas velas. O sangue de Brianna ferveu. Acendeu-se 
novamente a chama do desejo.
E dessa vez Charlotte percebeu.
A reao da moa no foi bvia em princpio, exceto talvez para Brianna, que no perdeu o leve estreitar daqueles olhos escuros e o morder do lbio inferior.
Quando o jantar foi servido, juntamente com o terceiro drinque de Charlotte, pareceria a um estranho desavisado que a conversa entre as cinco pessoas  mesa era 
normal, cordial e descompromissada.
Mas no instante em que estavam no meio da refeio, Charlotte mudou de comportamento. Deixou de ser uma moa com boas maneiras, uma pessoa extremamente refinada 
e converteu-se em um poo de insegurana.
Em princpio no deu ateno alguma a Brianna, preferindo monopolizar a ateno de seu distante noivo. No tirou as mos, quanto mais os olhos, de Spencer durante 
o restante da noite. O gesto fez Brianna sentir a j familiar dor no corao.
 Querido, voc poderia me passar o sal, por favor?  indagou, apesar de o saleiro estar to prximo dela quanto do noivo.
Passou boa parte do tempo tentando atrair a ateno dele, fazendo os mais inusitados e infantis comentrios.
        Spencer, amorzinho, voc poderia, por favor, olhar para meu rosto? Eu morreria de embarao se houvesse qualquer sinal de comida nele  pediu Charlotte.
Ao ouvi-la, Brianna sorriu, lembrando-se de Nova York e dos cachorros-quentes. Na ocasio, Spencer tocara seu rosto tambm.
Suspirou. Durante os ltimos dias vinha sentindo uma fome incontrolvel. Devorava tudo que via pela frente. Mas nesse momento via-se completamente sem apetite, apesar 
de a carne estar suculenta e praticamente intocada.
Ento comearam os ataques.
De incio, os esforos de Charlotte foram quase patticos, apenas tentativas juvenis de provoc-la. Mas o estado emocional de Brianna era delicado e por isso ela 
se tornou um alvo vulnervel.
Mas mesmo quando Charlotte passou a criticar a decorao de seu ateli, Brianna manteve-se calma, respondendo o estritamente necessrio.
Vendo que suas tentativas eram infrutferas, Charlotte foi mais incisiva.
        No pense que com essa cara de santa voc me engana!  exclamou.  No quer que eu me case com Spencer, quer? Voc no quer que eu me case com Spencer!
Ficou em p, soltando-se da mo que Spencer pousara em seu pulso para faz-la sentar-se novamente.
        Voc est tentando arruinar os meus planos para que possa ter Spencer s para voc...
        Charlotte!  ele chamou sua ateno em tom mais alto, j dominado pela fria.  Sente-se imediatamente!
Ignorando o noivo, a moa se inclinou por sobre a mesa, o rosto prximo a uma das velas.
        Assim voc ter um pai para seu beb!
        Charlotte! Sobre o que est falando?
Brianna ficou sentada imvel, sentindo-se grata pela presso confortadora da mo da sra. Lockhart sobre a sua por debaixo da mesa.
Mame percebeu imediatamente. Disse que sempre
 
sabe quando uma mulher est grvida. E eu nunca a vi enganar-se antes...
        Bem, mas est enganada desta vez, Charlotte..,
        No, Spencer, no est!
Brianna pegou o guardanapo do colo e colocou-o sobre a mesa.
Seus movimentos foram lentos e deliberados, como se estivesse em um sonho. Encontrou o olhar atnito de Spencer sem um s trao de culpa, remorso, sem nem mesmo 
o mais leve sinal do medo que sempre sentira a respeito.
 verdade. Terei um filho em outubro.
"Eu sinto muito. Sinto muito, demais", ela deixou que seus olhos dissessem para seu amado.
        E agora, se vocs no se importam...
Virou-se para Edwina.
        Acho melhor ir embora.
Ao levantar-se, a senhora pegou sua mo.
No acho que voc deva dirigir sozinha para casa...
Brianna acarinhou-lhe o brao.
        Acredite ou no, eu estou bem. Na verdade, sinto-me melhor agora do que nos ltimos meses.
A calma aquiescncia de Brianna ante a acusao pareceu trazer a sobriedade de volta a Charlotte. No momento em que entrou no carro de Spencer, olhava temerosa para 
o noivo, apavorada com o que poderia ouvir.
Spencer no ousou falar durante muitos minutos enquanto dirigia rumo ao apartamento de Charlotte, a mo apertando o volante com tamanha fora que as juntas de 
seus dedos se esbranquiaram.
Verdade fosse dita, no sabia o que sentia a respeito da situao de Brianna. Estava chocado demais para sequer pensar com clareza sobre o assunto.
No tinha dvidas, entretanto, quanto a Charlotte. Teria compreendido a manifestao de um certo nervosismo e at mesmo cime. Malvadeza, porm, era outra histria.
Charlotte olhava fixamente para a rua a desenrolar-se diante do carro, imvel, exceto pelo brincar com o anel de noivado que ornava sua mo direita.
Finalmente ela falou, a voz mostrando apreenso.
Sinto muito, Spence...
Ele levantou a mo direita, fazendo-a calar-se.
        No perca seu tempo, Charlotte. Est acabado. O noivado est acabado.
Droga! Poderia estapear a si mesmo por ter explodido daquela maneira imprpria. Mas j havia dito.
        No! Oh, Spencer, por favor, por favor, d-me uma outra chance...
Mas de nada adiantariam suas splicas. Spencer j estava decidido.
        Por favor no rompa o noivado, Spence. Farei tudo que quiser. At pedirei desculpas  srta. Fairchild  ela insistiu ainda.
Haviam chegado ao condomnio onde Charlotte morava. Spencer estacionou, desligou o motor e fechou os olhos, tentando ordenar os pensamentos e recobrar o controle 
que perdera.
No era to simples assim.
Lembrou-se da deciso que tomara no Japo, aps semanas de agonizante deliberao. Recordou-se tambm do choque que tivera quando Brianna admitira a verdade ante 
a alegao de Charlotte.
Mas, acima de tudo, recordava-se do rosto lindo e honesto de Brianna e da maneira como aqueles lbios macios o tinham feito sentir-se, como se tivesse encontrado 
algo que desconhecia ter perdido.
J no sabia se era seu corao ou sua mente quem tomava as decises.
Tambm j nem se importava.
Desceu do carro e foi em direo  porta do passageiro. Aps abri-la e ajudar Charlotte a descer, como sempre fazia, ps as mos em seus ombros. A julgar pelo sorriso 
que comeou a pairar naqueles lbios, dava para notar que Charlotte aparentemente pensava que Spencer iria beij-la. Reatar o noivado.
        O que voc decidir fazer realmente no importa disse ele.  Eu no mudarei de ideia.
Ento ele observou a expresso daquele olhar transformar-se em raiva.
 Ah, no?  indagou, cerrando os dentes.  Ento me aguarde!
Esquivou-se do toque de Spencer e vagarosamente subiu os degraus para a portaria do prdio, a ampla saia do vestido a oscilar, feito uma serpente.

CAPITULO VIII

Dois esquilos estavam em disputa territorial do lado externo da janela do quarto de Brianna. O barulho acordou-a bem cedo, na manh de se-gunda-feira. Lembrou-se 
como fora atribulado seu final de semana e como agradecera por isso, assim pudera esquecer a fatdica sexta-feira anterior.
Tratou de levantar-se para aproveitar melhor o dia.
Depois de um farto caf da manh, Brianna vestiu uma camiseta e uma velha cala jeans. Contemplou-se no espelho que ficava a um canto de seu quarto, virando-se de 
um lado e de outro. Puxou a camiseta para ter uma ideia de como ficaria em poucos meses.
Era inacreditvel.
Sorrindo, pegou a bolsa e as chaves do carro e saiu.
Uma hora mais tarde, sua van trazia uma boa parte do estoque de uma floricultura das proximidades. Virou  direita e entrou na rua de sua casa. Sentiu uma pontada 
no estmago quando viu o carro de Spencer parado em frente  sua casa.
"Oh, no! Hoje no!", pensou alarmada.
Estava recostado ao automvel e tinha os braos cruzados. Pronto para uma partida de golfe, talvez, pensou ela ao parar o carro no pequeno estacionamento em frente 
 loja.
 Eu temia ter perdido voc  disse Spencer, aproximando-se do assento de motorista e abrindo a porta pari ela.
As olheiras fundas sob os olhos azuis delatavam as noite maldormidas.
O que Brianna devia fazer naquele momento? Enquanto pensava em algo para dizer, soltou o volante e desceu da van, tentando no tocar seu corpo no dele ao lhe dar 
as costas para abrir a porta de trs. Observou algumas das plantas que havia comprado.
Brianna?
A voz suave e baixa a acariciou como se de fato Spencer a tivesse tocado.
Virou-se. Estavam muito prximos.
        Por que continua fazendo isso?  indagou, encabulada.
Ele pegou a planta de suas mos, a testa franzida.
        Fazendo o qu?
Aparecendo na minha casa. Tirando minha tranquilidade.
Brianna pegou mais um vaso de flores perfumadas.
Spencer a livrou tambm daquele peso, acomodando os dois vasos na varanda, junto da porta. Ento, tocou seus ombros com delicadeza.
        Precisamos conversar.
        No h mais nada a dizer, Spencer.
        Pelo menos, deixe-me falar sobre o que aconteceu na sexta-feira...
        Por favor  ela o interrompeu.  No espero desculpas pelo ocorrido. No h necessidade.
Sim, eu sei. Mesmo porque de nada adiantaria. Mas quero que saiba de uma coisa  ele deu um suspiro , disse a Charlotte que tudo est acabado.
Estou feliz por voc por ter agido assim  Brianna murmurou.  Mas isto no muda nada. Percebeu tristeza no olhar dele.
Eu lhe disse que nada poderia acontecer entre ns dois.
E agora sei por que disse aquilo  falou gentilmente. Deduzi que a outra pessoa  qual voc se referiu era o beb. Estou certo?
Ela encontrou seu olhar brevemente e fez um gesto de assentimento. E ento, antes que Spencer pudesse voltar a falar, disse:
 Isso faz diferena?
        Pensei muito sobre o assunto  ele comeou.  E confesso que em princpio fiquei confuso.  Spencer a fitou.  Poderamos conversar l dentro? Assim me 
sentiria mais  vontade.
Brianna no viu nada de anormal no pedido. Conduziu-o at a cozinha, passando pela sala de estar. Serviu-lhe um ch e ps-se a ouvi-lo.
        No me foi fcil romper com Charlotte. No porque a amava, mas sim porque sei o que  sofrer com um rompimento.
Brianna fixou o olhar em Spencer, mas no teve como sustent-lo enquanto ele falava.
        Na verdade, estou aqui para dizer que estou ao seu lado, meu amor.
Aquelas palavras foram suficientes para que ela desabasse em lgrimas.
        Oh, Spencer, estou muito angustiada.
        Voc no est sozinha, meu amor. No mais  ele disse, erguendo o quixo delicado com a ponta do dedo.
Mais lgrimas inundaram os olhos castanho-esverdeados.
        No quero que sinta pena de mim. Isto nada tem a ver com voc.  Brianna tentava conter as lgrimas.
Para provar que o que sentia estava longe de ser pena, Spencer cobriu-lhe os lbios com os seus, resistindo  urgncia de abra-la com fora e ardor conforme queria.
O beijo foi se tornando mais intenso a cada segundo. Um calor avassalador o tomou quando Brianna timidamente levantou os braos, envolveu seu pescoo e ento deixou 
os dedos mergulharem em seus cabelos.
Ele interrompeu o beijo, observando-a durante alguns segundos antes de voltar a possuir seus lbios desespera-damente, aflito por faz-la entender o quanto era querida 
e desejada.
Mas subitamente Brianna se afastou, os braos cruzando-se sobre o peito como para proteg-la.
        No  balbuciou, e Spencer detectou o medo que havia naquela voz.
Tentou voltar a abra-la, mas ela deu um passo para trs e andou pela sala de estar. Seguiu-a.
        Brianna... Por favor no ache... Eu no tive inteno de agir como... como a pessoa que a colocou nesta situao.
        No conseguirei passar por tudo isto novamente  disse ela, num tom de voz quase inaudvel.
No conseguir passar pelo qu, querida?
Brianna levantou o rosto, uma mscara de angstia. Seus olhos estavam repletos de lgrimas quando o encarou.
Brianna...
Spencer quase experimentava uma sensao de dor ante a percepo do sofrimento que devia estar assolando Brianna, mas de alguma forma sabia que precisava ser muito 
cuidadoso quanto a toc-la novamente.
        Querida, eu no quero ter um caso com voc. Eu quero me casar com voc.
        Voc quer o qu?
        Casar-me com voc. Passar o resto de minha vida a seu lado.
Ousou dar uns passos na direo de Brianna e colocar uma mo em seu ombro.
Ajud-la a criar esta criana.
Os olhos dela se arregalaram, demonstrando descrena.
        Pelo amor de Deus, Spencer, mal nos conhecemos... E eu no estou interessada em um casamento de convenincia...
        Por favor, querida...
Ele respirou profundamente e acariciou-lhe o rosto, secando a face molhada com a palma da mo. Sentiu a pulsao de Brianna na base do pescoo. Queria tanto voltar 
a beij-la...
        A primeira vez em que a vi fiquei assustado. Voc fez ressurgir em mim sentimentos que h muito julguei estarem mortos e sepultados.
Apesar de feliz por ouvir tais palavras, ela sabia que deveria ser realista.
        Oh, Spencer... No v que cometeramos um erro nos unindo na condio em que me encontro? No suportaria ter de enfrentar as crticas de seus amigos, da 
sociedade...
        E eu me importo com isso?  ele a interrompeu.
        No seria justo para o beb tambm.
        TsJnssa vida s interessa a ns mesmos. O beb ter todo o amor do mundo pois confio em voc. Quero dar uma oportunidade para que sejamos felizes.
         o que diz agora, mas no pretendo criar-lhe um problema para o futuro. Um casamento entre ns no pode ser como um conserto para tentar remediar o meu 
erro.
        Querida, eu no estou tentando consertar, salvar ou qualquer outra coisa que voc ache que pretendo fazer. Sei que no ser fcil, independente do caminho 
que escolhermos trilhar. Quero me casar com voc por apenas uma razo: porque a amo. Quero ficar com voc e ajud-la em tudo que voc permitir. Por que simplesmente 
no compreende isto?
        Porque o problema  meu e no seu  murmurou.
        Alm do mais, e isto poder surpreend-lo, saiba que me sinto confusa em saber que voc pediu outra pessoa em casamento quando, conforme admitiu, sentia-se 
atrado por mim.
        Eu ainda no havia me dado conta de meus sentimentos, no completamente. E eu senti uma certa obrigao em relao a Charlotte. Talvez Brbara tivesse razo 
ao fazer como fez...
Brianna no quis revelar que sabia um pouco de seu passado. Apenas deixou-o falar.
Sentia por ela talvez o mesmo que Charlotte por mim ele disse.  Mas no era correspondido. Brbara poderia ter sido mais sincera, mas deixar-me na porta da igreja 
foi mais sensato do que levar o erro adiante.
        Compreendo.  Era impossvel Brianna no se solidarizar com ele.
        Pensei que nunca mais amaria algum em minha vida. At conhecer voc...
Estudou o semblante delicado to prximo ao seu e mesmo assim to distante. Estava angustiado por no saber em que ela pensava.
Deixou sua ateno migrar para o lado de fora da janela, ignorando a sensao de que as coisas poderiam no ocorrer conforme o previsto.
Naquela noite em Nova York, quando nos beijamos...
Spencer deu um suspiro e corrigiu-se:  Oh, cus, bem antes de nos beijarmos, eu soube o que sentia por voc, mas simplesmente no conseguia lidar com aquele sentimento. 
Parecia que o cho havia sumido sob meus ps. Uma desculpa rota, eu sei. Mas simplesmente no podia suportar sentir-me to instvel, fora do controle de meu prprio 
destino.
Passou a mo pelos cabelos, pensativo.
        Ento, Charlotte trouxe  tona o assunto do casamento e em meu pnico vi a hiptese de casar-me com ela como algo seguro.  como se, ao comprometer-me com 
algum que no amava, de alguma forma conseguisse parar de amar voc. Um covarde, no  mesmo?
O riso de Brianna o surpreendeu.
        Eu jamais qualificaria o ato de tornar-se noivo de Charlotte como covardia.
Spencer desejou que o riso indicasse mudana de humor, bem como do rumo da conversa. Confiante nisso, ps o brao ao redor dos ombros de Brianna cuidadosamente, 
como se ela fosse um pssaro selvagem que voaria para longe caso se aproximasse demais.
Ela no se inclinou de encontro ao peito de Spencer mas tambm no se afastou. O desenrolar da gravidez deixava-a mais forte e muito mais bonita.
Queria ver naquele rosto todas as expresses: contentamento, tristeza, preocupao, excitao. Ansiava demais saber como ela se pareceria quando estivessem fazendo 
amor.
        Brianna?
        Sim?
        Arrisco parecer-me presunoso novamente. Quero saber se voc tambm me ama.
Ela encontrou seu olhar por um momento, os olhos castanho-esverdeados cheios de dor.
        De todo meu corao.
        E ento?
Eu sinto tanto. No posso me casar com voc, Spence.
Colocou dois dedos nos lbios dele para silenciar sua objeo, o olhar repleto de lgrimas.
        Eu no disse que no gostaria  complementou com voz trmula.  Falei que no posso.
        Ento no h nada mais a ser conversado a respeito, no  mesmo?
Quase incapaz de respirar tal a dor em seu corao, ele tirou o brao dos ombros de Brianna e caminhou em direo  porta.
Brianna fez um buraco no solo com sua colher de pedreiro, tentando convencer-se de que agira corretamente ao recusar a proposta de Spencer.
Mas no importava quanto tentasse racionalizar a deciso, no conseguia dissipar a sensao de que acabara de afastar de sua vida seu prncipe encantado.
Nem mesmo tentou secar os olhos quando ouviu o barulho do carro de Zo aproximando-se vinte minutos mais tarde. J no se importava com quem sabia dos fatos. Especialmente 
em se tratando de Zo.
Em outra situao, Brianna acharia cmico o olhar es-tupefato da amiga aps contar os episdios da gravidez e da recusa do pedido de casamento feito por Spencer.
Mesmo depois de todos os argumentos e explicaes, Zo no conseguia acreditar como Brianna deixara escapar de suas mos a chance de ser feliz. Tudo porque tinha 
princpios muito rgidos em relao a si mesma.
        Bem, mas tudo j faz parte do passado, de qualquer maneira. Depois que eu rejeitei a oferta de Spencer, o olhar que ele me deu... Provavelmente nunca mais 
falar comigo de novo, Zo. Eu tenho certeza  Brianna concluiu, com o olhar mais triste do mundo.
        Oh, sr. Lockhart...  a sra. Morgan murmurou.  A srta. Westwood est em sua sala.
Ele deu um suspiro. A ltima coisa que desejava era defrontar-se com ela naquele dia.
Charlotte estava em p defronte  janela que ficava atrs da escrivaninha de Spencer, os dedos brincando com o colar de prolas de duas voltas. Observava a paisagem 
de Atlanta. Virou-se ao ouvir Spencer entrar. Tinha uma expresso de culpa no olhar.   A sra. Morgan disse que eu poderia aguardar...
Havia um sorriso leve em seu rosto. Logo desapareceu.
O que voc quer, Charlotte?
Spencer estreitou os olhos ao observ-la aproximar-se, muito bem vestida em um terninho de seda preto. Parou a dois passos de distncia, como a testar o impacto 
de sua aparncia.
Pensei que talvez pudssemos almoar juntos.
Spencer dirigiu-se ao bar onde serviu-se de gua mineral.
        Sinto muito, tenho um almoo de negcios em quinze minutos.
Apoiou-se no bar, uma mo no bolso e a outra segurando o copo com gua.
        Se voc tem algo a dizer, ter de falar agora.
        Est bem... Tentarei aproveitar o tempo que me der. Eu apenas gostaria de... lhe pedir desculpas por meu comportamento naquela noite no restaurante. E implorar 
para que me d uma outra chance.
        Charlotte, no h nada a ser...
        Ao menos v comigo ao casamento de Allison Franklin no sbado. Ser um grande acontecimento e se eu aparecer sozinha...
Um sorriso de desprezo surgiu nos lbios dele. Ao se voltar para ela, pde notar que nem ao menos o anel de noivado ela havia tirado do dedo.
        Caso tenha se esquecido de alguma coisa, Charlotte, lembre-se de que ns rompemos. Se quer ir ao casamento de Allison, ter de ir sozinha ou encontrar outro 
acompanhante.
Observou, com alguma satisfao, o rosto de Charlotte tornar-se prpura, em tom bem prximo  cor de seus lbios. E ento, sem dizer uma s palavra, ela pegou a 
bolsa e saiu da sala.

CAPITULO IX

Assustada com o toque do telefone, Brianna quase jogou-o no cho, na tentativa de atend-lo.
 Al?  balbuciou, afastando os cabelos do rosto e tentando focar a viso no rdio-relgio.
Seis horas da manh!
Quase pulou da cama quando ouviu a voz estridente da sra. Franklin do outro lado do aparelho. Ouviu suas lamrias quanto ao tempo, pois o cu estava totalmente 
encoberto no dia do casamento de sua filha, e tambm por causa dos ajudantes de cozinha que no poderiam comparecer como o combinado.
Com muita psicologia, acalmou a senhora, desligou o telefone e logo entrou em contato com Zo, a fim de resolver os problemas.
Suspirou.
Brianna ficou pensando se perdera alguma notcia da tempestade que obviamente migrara para Atlanta durante a noite. Nunca vira chover to fortemente.
O limpador de pra-brisa da van mostrou-se intil e ela levou uma hora e meia para chegar at Vinings, o lado noroeste da cidade, partindo do salo que ficava no 
centro.
Tudo parecia conspirar contra ela. O mundo parecia desabar por causa da chuva, o cozinheiro teve seus ataques histricos por causa da falta de ajudantes, o motorista 
que trazia as flores para a decorao sofrera um acidente e, para finalizar, Allison chorava copiosamente ao ver Brianna e Zo entrarem em seu quarto. A jovem parecia 
ter perdido a guerra, tal seu esprito derrotista.
Bem, Brianna no conquistara o sucesso  toa, afinal. Arregaou as mangas e com a ajuda de sua fiel secretria, driblou cada problema com muita experincia e um 
sorriso nos lbios.
Faltavam apenas duas horas para o incio da cerimnia, mas Brianna, miraculosamente, contornou todos os tropeos daquele dia estressante. Deu uma olhada para o cu 
acinzentado ao passar por uma das janelas e praguejou.
Por Deus, Brianna, voc est bem?
Ela e Zo estavam se vestindo em um dos quartos de hspedes, em p lado a lado defronte a um enorme espelho. Brianna deu um olhar- de sobreaviso a assistente.
Zo mordeu a lngua ao ajeitar a lingerie sob o vestido de seda turquesa.
        No, eu falei de verdade. No gosto do modo como est sua aparncia. Comeu algo hoje?
Brianna sorriu enquanto punha os brincos de prolas e ajeitava melhor o vestido de um plido tom de amarelo.
        Roubei alguma coisa da cozinha quando Mareei no estava olhando. Zo, estou grvida, exausta e este dia est sendo especialmente cansativo. O casamento 
s acontecer daqui duas horas e sinto que terei de me esforar para resistir at l.
A jovem balanou a cabea em sinal de compreenso. Ento olhou para baixo e assustou-se.
        Deus existe! Veja!
        O qu?
        O cho. O que  aquilo?
Brianna seguiu a indicao e viu, sobre o piso de madeira, o brilho da luz do sol.
Pasmas, ambas olharam pela janela do quarto. J no havia uma s nuvem  vista.
A igreja era pequena demais para as diversas centenas de convidados, mas to acolhedora e linda que ningum se importou. Brianna podia at imaginar noivas de outras 
pocas adentrando a igreja depois de descerem de belas carruagens.
O estacionamento, entretanto, estava repleto de carros de luxo com ocasionais modelos mais baratos aqui e acol.
A maior parte dos convidados j estava sentada quando Brianna ouviu murmrios de aprovao dos recm-chega-dos, bem como das pessoas que haviam ficado mais no fundo 
de propsito para verem em detalhes o vestido da noiva.
Com um calmo aceno de cabea, indicou ao msico que comeasse a tocar rgo e ento dirigiu-se  porta lateral, o buque de noiva em mos, e hall abaixo para o vestbulo.
Zo ajeitava o vestido da noiva. Ao lado estava o estico pai. Procurava ficar fora do caminho dos convidados que continuavam chegando, mas o enorme vestido e as 
doze damas de honra lhe deixavam pouco espao inclusive para respirar no minsculo vestbulo.
        O que voc acha?  Zo indagou a Brianna em tom de voz bem alto para fazer-se ouvir apesar das vozes femininas a tagarelar.
        No  ela respondeu.  A questo : o que a noiva acha?
Allison respondeu com um sorriso radiante, fazendo meneios com a cabea e dando leves acenos aqui e acol para algum que reconhecia e que passava.
        No poderia me sentir mais feliz, srta. Fairchild  murmurou, mais linda do que Brianna jamais a vira.  E nem venha me dizer que nada teve a ver com o 
aparecimento do sol.
O dia finalmente decidira cooperar. Mareei estava controlado, todas as flores nos lugares correios em ambos os locais, a chuva desaparecera e a noiva estava estonteante.
Suspirando, Brianna deu uma volta ao redor de Allison para ajudar a arrumar o vu e o enfeite de cabea. Subitamente sentiu-se enregelar ao ouvir uma voz mscula 
profunda e familiar em meio  multido, ele estava em p a pouca distncia.
Prxima a Spencer e vestindo uma roupa muito cara estava a mulher da qual ele supostamente j no era mais
noivo. O anel de noivado, entretanto, um diamante de grande ostentao, ainda brilhava na mo direita da moa.
        Oh, Allison!  Charlotte exclamou, como se quisesse chamar a ateno.  Voc est absolutamente deslumbrante! No  mesmo, querido?
Antes que Brianna tivesse chance de pensar, seus olhares se cruzaram por no mais do que um segundo. Apenas tempo suficiente para ela ver milhares de emoes passarem 
pela mente de Spencer. Sentiu os olhos rasos d'gua.
        Bem, Allison, voc est pronta  Brianna forou-se a falar de modo exultante.
Baixou o tom de voz e virou-se para Zo.
        Caso no se importe...
        V em frente  a assistente lhe sussurrou.  Saia daqui!
Grata, Brianna fez um gesto de assentimento, ento escapuliu pela passagem lateral, recostando-se  parede. Sua mo estava pressionada contra a boca quando o msico 
comeou a tocar as primeiras notas da marcha nupcial.
Spencer ainda no podia acreditar nos truques que Charlotte utilizava para estar a seu lado no exato momento em que Brianna passou: a dor que viu naquele olhar 
deixou-o desconsolado. Ficou ainda mais aturdido quando foi obrigado a sentar-se a seu lado durante a cerimnia, por falta de lugares na igreja. E o vestido com 
um decote avantajado deixava-o ainda mais constrangido.
O brilho do anel chamou novamente sua ateno quando Charlotte mais uma vez mudou de posio no assento.
Recostada na pia, Brianna elegera a cozinha como refgio para tentar se acalmar. Com o argumento de que precisaria ajudar o cozinheiro, ningum daria por sua falta.
Para seu alvio, o servio de copa e cozinha estava quase finalizado quando a dor nas pernas comeou a ser sentida. Deixou as tarefas remanescentes para as auxiliares 
e foi se recolher em um dos quartos no andar superior. Quase no ouviu o leve barulho de uma batida na porta.
Franzindo a testa, levantou-se da cadeira.
Edwina!
Zo me falou que voc estava aqui em cima.
Deu um passo para o lado e deixou a senhora entrar. Foi observada com expresso de pouca satisfao.
        Ela tambm me disse que estava preocupada com voc. Posso ver o motivo. Isto no  nada bom, Brianna. No, se voc quiser ter um beb saudvel.
Brianna sorriu e voltou a sentar-se na poltrona.
        O dia de hoje mostrou-se recheado de complicaes inusitadas. Em poucas horas tudo estar terminado e eu poderei ir para casa e descansar.
        E levantar cedo amanh para fazer tudo novamente?
        Zo cuidar das tarefas de amanh. No terei de estar l.
        Bem, pelo menos isto. Olhe, sei que provavelmente este no  o lugar para trazer o assunto  baila, mas Spencer me disse a respeito da proposta que lhe 
fez.
Brianna respirou profundamente e ento fez um gesto de assentimento.
Voc recusou.
Tudo que pde fazer foi lanar-lhe um olhar raso d'gua.
        Oh, querida, apenas olhe para voc. Por qu?
Brianna respirou profundamente. Tentava conter as lgrimas. Teve pouco sucesso.
        Aonde quer chegar, Edwina? No notou com quem ele est aqui esta noite? Quem ainda est usando um anel de noivado?
        Posso lhe dar minha palavra de que esta  uma situao forjada e que ser devidamente esclarecida no final da noite.
         mesmo? Est planejando fazer com que Charlotte sofra um pequeno acidente ou algo do gnero?
Rindo alto, Edwina balanou a cabea para negar.
        Por Deus, aquele vestido j me daria motivos suficientes, no acha? Mas no, embora isto seja tentador, no ser isso que farei. Conheo meu filho. Ele 
me disse que Charlotte no lhe devolvera o anel e que  cavalheiro demais para o exigi-lo de volta.
        Isto no significa que tivesse de traz-la para o casamento, no ?
        Ele disse  moa de modo bem claro que no seria seu acompanhante. Mas aquela mulher  esperta, faz qualquer um de tolo.
        Eu no compreendo.
        Querida, ela armou tudo aquilo. Voc deveria ter visto Spencer no momento em que a cerimnia terminou. Aquela jovem tem sorte em estar viva. Ele ficou extremamente 
aborrecido por voc t-los visto juntos.
Brianna baixou a cabea e fitou as prprias mos, fortemente entrelaadas no colo. Imaginou o que se seguiria.
        Ento, j que Charlotte no mais  um problema...
        Eu simplesmente no posso me casar com ele tendo no ventre o beb de outra pessoa. No posso permitir que ele se case com uma mulher que foi tola o bastante 
para deixar-se engravidar..-.
        Brianna!  Edwina gritou, fazendo-a rapidamente levantar a cabea.  Nunca mais permita que eu a oua falando assim novamente, entendeu bem? No h criatura 
alguma de Deus que no tenha dado seus escorreges. O nico engano, se existe,  no tirar o melhor proveito de tudo isto. Alm do mais, voc no acha que esta deciso 
cabe a Spencer tomar? Vocs dois so simplesmente loucos um pelo outro...
Brianna levantou-se da poltrona, impaciente.
        Edwina, eu a respeito extremamente e aprecio sua preocupao...
        Eu sei, eu sei, mas por favor escute... Gostaria apenas que pensasse bem e reconsiderasse sua opinio quando meu filho voltar a pedi-la em casamento, Certo?
Havia pessoas demais na casa. Depois de vinte minutos, a falta de ar e o incessante barulho das conversas fez Spencer sair para o lado externo e ento caminhar 
pelo enorme jardim em direo a um banco.
Caminhou pela estrutura de madeira, os passos ecoando. Observou os imaculados gramados que se esgueiravam na direo oeste. O incio da noite dava  paisagem um 
ar etreo.
Aspirou profundamente a fragrncia suave das petnias
e rosas. O mesmo perfume que havia na casa de Brianna, percebeu, fechando os olhos para conter a dor.
Spencer, querido? O que faz aqui?
Virou-se e viu Charlotte se aproximando atravs da grama molhada, a saia esvoaando ao redor de seus joelhos enquanto andava.
Respirando  foi a resposta.
Spencer pensou que a resposta pouco educada pudesse afast-la. Mas ao contrrio, Charlotte ousou aproximar-se. Com um olhar provocante tentou beij-lo.
Charlotte, por favor, deixe de ser tola!
Ela deu um passo para trs e riu tristemente.
Bem, no se pode culpar uma garota por tentar.
Quando se virou, sua mo direita estava estendida, o anel de noivado entre o dedo e o indicador.
        Por favor...  disse ela com voz trmula.   melhor pegar isto de volta antes que eu mude de ideia.
Spencer hesitou, ento estendeu a mo, um imenso alvio invadindo-o no instante em que sentiu o frio metal na palma da mo. Fechou os dedos ao redor da jia.
Obrigado.
Observou-a melhor e percebeu que Charlotte tentava no chorar.
        Eu sinto muito  murmurou ele.
        No sinta. Eu tentei forar um pouco. No funcionou. Ningum  dono dos prprios sentimentos.
Estava de costas para Spencer.
        Observei seu rosto hoje no vestbulo da igreja, antes da cerimnia. Foi ento que eu soube que a batalha estava perdida. Voc absolutamente a adora, no 
 mesmo?
Havia algo naquela voz que ele nunca antes notara.
Adorava? Isso era mais do que amor. Sim, adorava Brianna. Colocando o anel no bolso, resolveu responder  pergunta de Charlotte.
Sim,  verdade.
Ela cerrou os punhos, mas ento relaxou.
        Bem,nada mais me resta a no ser voltar para a festa.
Brianna organizou tudo muito bem.  Spencer pde notar que ela falava com ssinceridade.  Amanh anunciaremos o rompimento do noivado. Est bem?
Sem mais palavras, ela se voltou em direo  casa, sem dar tempo a ele de ver as lgrimas que corriam por suas faces.
Spencer pegou o anel que estava em seu bolso. Ficou pensando como era possvel sentir uma tristeza to profunda e um alvio to intenso ao mesmo tempo.
Brianna esperou mais cinco minutos aps a sada da me de Spencer para deixar o quarto e descer a escada para a recepo.
Finalmente tudo parecia estar nos conformes. Diversos ambientes do andar trreo estavam repletos de riso e pessoas a comer e danar. Recebeu diversos elogios durante 
a prxima hora ao passar de ambiente a ambiente.
Sabe, srta. Fairchild, acho que desta vez voc se superou!
Brianna conhecia muito bem aquela voz. Virou-se e se viu face a face com Charlotte. Estava sozinha.
        Fico feliz que esteja apreciando, srta. Westwood.
        Oh, querida, por favor, chame-me de Charlotte.
Ela ria alto demais. Brianna automaticamente pousou o olhar na taa de champanhe que estava na mo da moa. Ficou imaginando quantas ela j teria tomado naquela 
noite.
E como a mezinha est se sentindo esta noite?
Brianna fechou os olhos por um momento, grata pelo barulho reinante na sala. Ningum mais devia ter ouvido o comentrio cido de Charlotte.
        Estou bem.
        Fico feliz por voc...
O burburinho foi se tornando mais forte e ento passou. Brianna aproximou-se da mesa do buffet e respirou profundamente.
Ento seus joelhos fraquejaram e a sala toda comeou a girar. Vagamente conscientizou-se do barulho de pratos se quebrando, algo molhado escorrendo por seu brao 
e ento, justamente antes que tudo se tornasse negro, escutou a voz pausada de Spencer suavemente chamando seu nome enquanto ela desabava contra o corpo forte j 
a caminho do cho.

CAPITULO X

A dra. Steinberg tirou o aparelho de medir presso do brao de Brianna e colocou o aparato dentro de sua bolsa.
        Bem, no preciso lhe dizer que necessita de repouso absoluto  a mdica disse.  O beb est bem, mas voc precisa de cuidados.
A mdica se virou para Spencer.
Pode lev-la para casa?
Assim que ela estiver pronta para ir  respondeu Spencer do outro lado do enorme quarto de hspedes dos Franklin.
Acompanhou a dra. Steinberg para fora do quarto e Brianna recostou-se nos travesseiros e suspirou. Segundos depois, virou a cabea para o lado e sorriu ao sentir 
o colcho ceder ante ao peso de Spencer.
No fazia sentido, mas ele era a nica pessoa que poderia faz-la sentir-se melhor naquele momento.
        Antes de mais nada, quero lhe mostrar isso.  Spencer tirou o anel do bolso. Com um sorriso, ele falou:
        Agora acredita em mim?
O corao dela disparou. No havia nada entre Brianna e a proposta de casamento naquele instante a no ser sua prpria resistncia. E ambos sabiam disso.
Fechou os dedos de Spencer ao redor do anel e afastou-lhe a mo.
        Poderamos ir embora agora?
        Brianna, meu amor, minha oferta ainda est vlida.
Encarou aqueles olhos profundamente azuis, colocou a mo no brao forte e o acariciou.
        Eu sei, mas...
        Mas... sempre existe um "mas"...  Ele suspirou.  Vamos combinar o seguinte... Vamos para casa e eu providenciarei algo para voc comer. Depois conversaremos, 
tanto quanto for necessrio, est bem?
Spencer fez Brianna ir para a cama, ento tirou o casaco e a gravata, enrolou as mangas da camisa para cima e foi para a cozinha.
Vinte minutos mais tarde carregava uma bandeja cheia de comida. Providenciara uma omelete de queijo e ervas, torradas com queijo cremoso e gelia e um grande copo 
de leite.
        Tudo parece estar delicioso.  Aps a primeira mordida ela acrescentou:  Est delicioso mesmo. Ento voc sabe cozinhar!
Spencer acomodou-se em uma poltrona e cruzou as pernas.
        Cozinho todas as noites, acredite ou no. Mame insistiu para que eu aprendesse.
Acomodou-se melhor na poltrona e a observou comer enquanto bebia ch gelado.
A camisola de algodo de mangas longas ia at o pescoo de Brianna. Ele tinha certeza de que fora escolhida delibe-radamente por suas qualidades nada sedutoras. 
Ou ela pensava que no fossem.
Spencer sorriu para si mesmo, estudando a linha de botes de prola que iam do pescoo at a cintura, passando pelos pequenos e aprumados seios que se tornavam 
quase visveis atravs do fino tecido.
Uma renda simples e bonita ladeava o colarinho e os pulsos, dando s delicadas mos um toque extra de feminilidade.
Brianna soltara os cabelos e a cascata dourada ao redor de seu rosto e ombros iluminava os olhos castanho-esver-deados ainda mais. O conjunto era muito esplendoroso 
e inocentemente sensual pelo que deixava de revelar.
O que foi?  indagou Brianna, limpando a boca com o guardanapo e ento colocando a bandeja do outro lado da cama.
        Oh... nada. Terminou?
        Sim, obrigada.
Recostou-se nos travesseiros com um grande suspiro e viu-o pegar a bandeja.
        Estava realmente maravilhoso. Obrigada.
        Sempre que quiser eu farei.
Em quinze segundos levou a bandeja at a cozinha. Retornando a seu quarto hesitou, ento sentou-se ao lado da cama e encontrou o olhar questionador. Lentamente 
levantou os dedos para acariciar a pele fresca das bochechas rosadas.
Os olhos de Brianna se arregalaram por um segundo no instante em que foi tomada nos braos e ento se fecharam ao sentir o calor dos lbios de Spencer. O beijo foi 
firme, no permitindo recusas. E possessivo. Muito possessivo.
Ele sentiu os braos de Brianna circundarem seu pescoo e a boca macia corresponder ao beijo. Encorajado, afastou-se levemente e deixou o dedo traar o contorno 
do rosto feminino, do queixo, do pescoo e mais abaixo, at a linha de botes que to bem protegiam as sinuosidades daquele corpo de mulher...
Brianna imediatamente ficou tensa e afastou-se. Seu rosto estava corado, da mesma cor da camisola.
Ora, querida...
A voz de Spencer era um leve sussurro. Gentilmente acariciou o brao de Brianna.
        No tive inteno de fazer nada mais alm de beij-la...
        No posso me casar com voc. No posso...
Seus olhos estavam fechados e lentamente ela os abriu, uma lgrima brotando em cada olho.
Nesse instante, Spencer sentiu-se preocupado. Preocupado e mesmo assim perplexo. Secou a lgrima com o polegar e ento pegou uma das mos de Brianna entre as suas.
        Deixe-me colocar as coisas de outra maneira. Estou completamente apaixonado por voc e no tenho mais qualquer obrigao quanto a Charlotte. No dou a mnima 
para o que as pessoas possam pensar a respeito de nosso casamento. Mesmo assim, vejo que simplesmente no aceita os fatos.
Brianna se recusava a encontrar seu olhar. Ela prpria no conseguia mais suportar a batalha que travava contra seu corao. E voltou a chorar copiosamente.
Com um gesto delicado, Spencer pegou-lhe as mos e ento conseguiu encarar aquele olhar amedrontado.
        Brianna, eu a amo. Que tal voc me dizer toda a verdade?
Brianna no conseguia parar de tremer. Queria falar para Spencer, mas no podia. Mas precisava!
        Isto no sair deste quarto?
        Meu amor, isto-nada tem a ver com outra pessoa a no ser ns dois.
Ns dois. As palavras dele os tornavam uma unidade, pensou, algo impenetrvel que exclua o restante do mundo. Levara-a para o precipcio, era verdade, mas tambm 
poderia ser sua nica salvao para que no se jogasse de l de cima.
O nome do pai  Tom Zimmerman.
Imaginou que Spencer poderia conhec-lo, mas ele apenas deu de ombros.
        Eu o conheci em um dos casamentos que organizei. Era primo do noivo. Um empresrio de Dlias.
Abraou os prprios joelhos, sentindo o carinho que Spencer fazia em sua mo conforme falava.
        Eu tinha tido um Natal terrvel. Estive completamente sozinha e no tive ningum nem mesmo com quem partilhar o jantar...
        Nem mesmo Zo?
        Ela tinha ido passar o feriado em San Francisco. Portanto, no. De qualquer maneira, fiquei extremamente deprimida, embora achasse que estaria recuperada 
ao final de janeiro. No fazia ideia do motivo, mas por alguma razo, este casamento em particular me deixou mais triste ainda.
Mordeu o lbio inferior. Ao resumir os relatos, parecia que no estava ali, que assistia  cena mas no participava dela.
 De incio, Tom foi charmoso e ns nos dvamos bem. Samos para jantar depois do casamento e nos divertimos muito. Ele me disse que estava divorciado h diversos 
anos e mostrou-me fotografias de crianas. Lamentou no poder v-los com frequncia. Ficou por aqui durante uma semana aps o casamento e ns nos vamos todas as 
noites. Devo admitir que ele nunca me pressionou para ter um caso, embora fosse muito habilidoso em mostrar-se agradvel e encantador.
Voc o amava?
Ela abriu os olhos, notou o cime naquele olhar e apressou-se em tranquiliz-lo.
        No, estava apenas namorando um pouco.
        Brianna?
        Por favor, no me pressione. Estou fazendo o melhor que posso. Isto me machuca...
        Eu sei, querida. Apenas fiquei pensando que talvez fosse bom voc dizer tudo de uma vez para livrar-se do peso.
Brianna falou em um monlogo, permanecendo recostada ao peito de Spencer e ouvindo-lhe as batidas do corao atravs da camisa. Ele lhe fazia carinho nos cabelos 
e a incentivava a contar o restante daquela histria triste.
        Era a ltima noite que ele passaria na cidade. A noite havia sido perfeita, ns dois muito entrosados e alegres.
Fechou os olhos, revivendo as imagens que tantas vezes passavam por sua mente e que ela queria apagar para sempre.
        Ele... ele se tornou outra pessoa no instante em que a porta do seu quarto de hotel se fechou. A expresso de seu olhar... era... horrvel. E como uma moa 
da poca vitoriana, protegida e inocente, eu simplesmente no sabia o que esperar e o que eu deveria sentir.
Lgrimas inundaram seu rosto e ela comeou a tremer incontrolavelmente.
        Ele... no parava de me dizer que se eu no fosse to fria assim... se no fosse to... frgida... eu apreciaria o que estava fazendo comigo e que ele tambm 
sentiria muito mais prazer...
Soluou e sua voz reduziu-se a um sussurro.
        Disse que era como estar fazendo amor com uma vassoura, que meu comportamento era o motivo de ainda ser virgem. Com um corpo assim...
Respirou profundamente e o abrao de Spencer se intensificou. Estaria ele tremendo tambm? Quando conseguiu controlar a voz, decidiu prosseguir.
        Depois disso, enquanto eu estava deitada em sua cama de hotel com os lenis cobrindo meus seios to inadequados e sentindo dores por todo o corpo, ele 
riu. Mostrou-se claramente deliciado em me dizer que no era divorciado, que tivera uma briga com sua esposa e que esta era sua maneira de vingar-se. Tudo o que 
havia feito fora dirigido, o tempo todo, para ela e no para mim...
        Mas  voc que est grvida!  interrompeu Spencer.  O bastardo nem mesmo usou alguma proteo?
        Disse-me que havia feito vasectomia.
Spencer praguejou.
        Fico surpreso por voc ter decidido manter este beb.
        O beb  meu  respondeu com uma firmeza que tambm a espantou.  A criana nunca, jamais saber de nada sobre seu pai.
        Brianna, este beb ter um pai.
        No! Aquele homem est morto, pelo menos para mim e para esta criana...
        Mas eu no estou falando sobre este tal de Tom. Falo a meu respeito.
        Spencer...
        No. Agora  sua vez de me ouvir. O que aquele sujeito fez com voc foi absurdo e digno de desprezo. Aquilo no foi amor, querida. Nem mesmo foi sexo. O 
amor, o ato amoroso, pode ser apaixonado e at mesmo frentico s vezes. Mas sempre deve ser doce, repleto de respeito e fazer com que as duas pessoas se sintam 
como se o mundo flutuasse a seu redor.
Beijou-a nos lbios e sua mo acariciou-lhe levemente os braos. Ela olhou para o nada.
No, Brianna, olhe para mim.
O comando foi suave, mas firme. Quando ela permitiu que seu olhar encontrasse o de Spencer, sentiu que, finalmente, havia chegado em casa.
        Quem est diante de voc sou eu, no aquele canalha com problemas mentais. E eu jamais sequer sonharia em tratar uma mulher daquela maneira.
Brianna estremeceu ao sentir o olhar de Spencer passar deliberadamente por seu corpo.
        Voc  to linda que me deixa sem flego cada vez que a vejo. Acredita em mim?
Ela encostou a testa no peito forte e balanou a cabea em sinal de negativa.
Bem, mas voc .
Ergueu-lhe o queixo com dois dedos e a beijou suavemente.
        Eu me lembro de como a achei uma criatura extraordinria logo na primeira vez em que a vi. Eu me importei com seu bem-estar como jamais me senti em relao 
a qualquer outra pessoa em minha vida. E, no momento certo, considerarei uma honra fazer amor com voc e lhe mostrar como  linda esta partilha. Mas no esta noite, 
ainda no  o momento.
Fez uma pausa.
        Brianna?
        Sim?  balbuciou.
        Confia em mim?
        Sim.
        Ento... Se eu conseguir convenc-la de que juntos poderemos amansar todos seus temores, reconsiderar minha proposta de casamento?
Brianna j sabia a resposta a isso. Mas algumas vezes, decidiu, havia vantagens em no se mostrar todas as cartas to cedo sobre a mesa.
        Eu... irei reconsiderar  murmurou e poderia gritar ante a alegria que viu naquele olhar.
Spencer passou as mos pelos cabelos de Brianna, os dedos ocasionalmente acariciando a renda do colarinho da camisola.
Lemhra-se de quando eu lhe perguntei se voc me amava?
Ela assentiu, incapaz de desviar o olhar.
        E o que foi que voc disse?
        De todo meu corao  sussurrou.
        Ento tudo o mais se ajustar.
Ajeitou-a melhor sobre os travesseiros, beijando-a na testa. Ela se sentia um pouco zonza ao ouvir as palavras carinhosas repletas de amor, gentileza e apoio.
Lentamente Brianna foi invadida por uma sensao de relaxamento e confiana. E quando ele a beijou, correspondeu ao carinho em completo abandono e entreabriu os 
lbios para receber a lngua que to gentilmente lhe explorava a boca.
Spencer a abraava com cuidado, como se temesse machuc-la. Subitamente ele interrompeu o beijo e fitou-a intensamente, as sobrancelhas arqueadas.
 to bom  murmurou, rindo baixinho quando sentiu um arrepio passar por seu corpo.
Voltou a beij-la com uma paixo terna que fez o sangue de Brianna ferver. Ficou tensa mais uma vez mas no de apreenso e sim de antecipao. Sentimento que j 
a deixava sem flego.
Ao tocar os botes da camisola, sentiu-se encorajado. Ele no deixou de fit-la enquanto desabotoava todos o botes da camisola de Brianna. Somente ento baixou 
o olhar e sua expresso foi de tamanha aprovao que a fez enrubescer.
        Exatamente como pensei  sussurrou ele.  Perfeitos. De forma alguma so inadequados, sua boba.
Ento fechou a camisola sobre os seios de Brianna, voltando a abotoar cada uma das prolas. Beijou-a novamente.
Ainda est com medo?
Ela balanou a cabea de um lado a outro, a respirao acelerada. Sorriu-lhe.
Spencer riu, um som de nervoso alvio e ela percebeu que no fora a nica a sentir medo naquele quarto.
        De alguma maneira, no acho que ir demorar muito at que eu possa v-los novamente.
Um grito de indignao escapou dos lbios de Brianna.
Ora, seu arrogante, presunoso...
Rindo, ele a conteve, segurando-lhe os pulsos. Brianna pensou em como gostava do som daquele riso. E em como o amava.
E ento... j reconsiderou minha proposta?
Sim.
E?
Sim!
Beijou-a com tamanha doura que Brianna achou que fosse desmaiar. Quando abriu os olhos, viu-se diante de um pequeno saquinho de veludo.
Bem,  seu, pegue-o  murmurou Spencer.
        Oh, Spencer...  maravilhoso  disse com falta de ar.  Como...
        Eu estava carregando isto desde que voltei do Japo, apenas o transferia de bolso para bolso...
Ora, o que farei com voc?
Depois que nos casarmos, far o que quiser.
        Muito engraado  brincou ela, inclinando-se para beij-lo.
Depois que se afastaram, Brianna voltou a aprumar-se e mirou o anel, ao mesmo tempo imaginando como estaria sua presso sangunea no momento.
        E muito antigo, no  mesmo?
        Pertenceu  minha bisav. Mame o tirou do cofre h duas semanas e simplesmente entregou-o para mim. Nem precisei perguntar o motivo. Ela tem estado nos 
rodeando durante o tempo todo, voc sabe. Agora, coloque-o. Anis de noivado foram feitos para serem usados e no observados.
Conforme falava, pegou o delicado anel de safira e colocou-o no dedo de Brianna. Pasma, ela observou a jia. A pedra era muito grande e ladeada por pequenos diamantes 
e prolas. Riu.
        Puxa, se eu soubesse que isso fazia parte do acordo, acho que teria dito "sim" um pouco mais cedo... Oh! Oh!
        O que foi?  Spencer indagou, dando um pulo.  O que foi?
        Bem, no tenho certeza, mas... Oh,  isto!
Sorrindo amplamente, ela pegou-lhe a mo e a colocou sobre o ventre.
        O beb se mexeu, Spence. Acabei de sentir meu beb mexer pela primeira vez.
Com a mo ainda sobre a barriga de Brianna, ele acarinhou-lhe o pescoo.
        No, no sentiu, querida.
        Oh, sim, eu senti, Spencer. Tenho certeza. Apenas mantenha sua mo a por mais de tempo e...
        No, no foi isto que eu quis dizer  murmurou suavemente.  Voc no sentiu seu beb, minha querida. Voc sentiu o nosso beb.

EPLOGO

        Bom dia, dorminhoca! 
Brianna espreguiou-se e bocejou.
        No sou! J estava acordada h um bom tempo.
         mesmo? E onde eu estava?
        Dormindo. Foi por isto que eu voltei para a cama  bocejou novamente.  Que horas so?
        J passa das nove.
Sorrindo, ela sentou-se, ajeitando o lenol ao olhar para Spencer. Ele estava em p segurando uma bandeja. Adorava v-lo relaxado assim, o robe displicentemente 
atado  cintura e revelando a maior parte do peito musculoso e atraente.
Voc est me mimando, sabe disto.
        E manh de domingo  respondeu-lhe ao colocar a bandeja sobre suas pernas.  Alm do mais, depois da noite passada,  o mnimo que eu poderia fazer.
Brianna enrubesceu e ouviu o riso do marido.
        Adoro quando faz isto.
        O qu?
        Quando enrubesce. Estamos casados h quase dois anos mas isto ainda acontece como se fosse a primeira vez. E encantador.
Estremecendo ante o toque, fitou-o e lhe deu um sorriso. Ainda conservava o lenol sobre os seios e fez um gesto em direo ao robe que estava pendurado em uma poltrona 
do outro lado do quarto.
        Pegue o robe para mim, por favor, sr. Lockhart. Onde est o jornal?
        Est exigente esta manh, no  mesmo?  Spencer respondeu rindo ao lhe estender o robe e ento pegou o jornal e o colocou sobre a cama.
        Onde est Melissa?  indagou Brianna, cuidadosamente enchendo uma colher com cereais e frutas.
        Minha me est absorvida com a neta sabe Deus onde. Disse que nos veramos no almoo. Por isso...
Vagarosamente sentou-se na beirada da cama para no virar a bandeja.
A manh  toda nossa. O que gostaria de fazer?
O brilho daqueles olhos era indisfarvel.
        Como se eu no soubesse qual seria sua primeira escolha  brincou, tomando um gole de suco de laranja.  Voc no tem mais de ficar me provando coisas, 
sabe disto. J entendi como tudo funciona e  bom, muito bom amar voc.
        Entediada?
        Faa-me esta pergunta novamente daqui a cinquenta anos. E voc, o que tem?
        Impacincia, mulher. J terminou de tomar caf?
        Mantenha suas roupas a, rapaz  disse ela, comendo uma torrada.  Seu robe deve ficar no lugar certinho por enquanto.
Um protesto escapou dos lbios de Spencer e ele se esgueirou sob as cobertas.
        A propsito, Zo deixou uma mensagem na secretria eletrnica. Algo sobre finalizar os esboos do vestido de Heather Franklin para tera-feira.
        Oh, est bem, terei de trabalhar nisto amanh, acho eu.
Enquanto comia, os pensamentos de Brianna migraram para bem longe. Dera a Zo a promessa de promov-la depois que se formasse e a jovem nesse momento geria o negcio 
com tanta eficincia quanto Brianna anteriormente e tambm morava em seu antigo apartamento sobre o salo.
Brianna j no ia mais a casamentos, exceto como convidada, mas ainda desenhava roupas e tinha vontade de um dia manufaturar sua prpria coleo de vestidos de 
noiva. Um dia.
s vezes sentia falta de seu lindo apartamento e das noivas malucas. At mesmo do silncio das noites. Mas com pouca frequncia e no durante muito tempo.
Adorava morar na casa em Buckhead e ter a companhia de Edwina todos os dias.
Seus receios acerca de os amigos de Spencer a esnobarem se mostraram infundados. Os poucos que lhes deram as costas no valiam a pena como amigos, ao menos foi assim 
que o marido lhe falou.
Sua vida poderia ser ainda melhor? Eles tinham a filha mais linda do mundo, que era uma miniatura de Brianna com olhos verdes e cabelos dourados.
Todos os dias agradecia aos cus pelo homem com o qual partilhava sua vida. Aquele sorriso lindo sempre lhe dizia o quanto era amada e os carinhos revelavam como 
gostava de seu corpo. E logo...
Brianna?
Espantada, virou-se ao ouvir a voz baixa de Spencer  sua direita. Estivera to perdida em pensamentos que nem notara que ele a fitava.
        Voc alguma vez se arrependeu de no ter tido um casamento grandioso?
        Por que est falando sobre isso agora?  perguntou, rindo.
        No sei. Algumas vezes fico pensando se voc se sentiu triste a respeito. Sabe como , fez tantas extravagncias para outras pessoas...
        Mas eu estou muito feliz com a forma como tudo aconteceu.
Mais uma vez ela enrubesceu profundamente ao lembrar-se da pressa para organizarem o casamento dias depois de ela finalmente ter aceitado a proposta de Spencer. 
Apenas foram convidados para a cerimnia Edwina, Kelly, Colin e Zo.
Tocou o rosto do marido, notando que eleja fizera a barba.
        Achei tudo muito romntico, senhor. E excitante. Se voc quiser se lembrar de tudo novamente...
Gemendo, ele passou o dedo pelo ombro da esposa e o pousou em seus lbios.
        Espere um minuto  provocou-o, ajeitando o robe 
sobre o ombro e virando-se para colocar a bandeja sobre o cho.
Ento abriu o jornal e foi vagando pelas sees, arrepiando-se toda quando Spencer lhe fez um carinho no pescoo.
        Pare!  exclamou rindo, ao sentir um carinho estimulante nas coxas.  Oh, veja s isto!
Mostrou a Spencer as pginas da coluna social. Ele colocou culos de leitura que estavam na cabeceira e observou o artigo e a fotografia que ela lhe indicava. Riu.
        Espero que ela goste mais desta fotografia do que da anterior.
        Bem  Brianna falou, rindo  se no gostar, pelo menos seu futuro marido  um cirurgio plstico.
Spencer tirou os culos, olhou para o teto e ento falou:
        Eu realmente espero que Charlotte seja feliz.
Brianna sorriu e o acarinhou.
        Sei disto. Eu tambm, na verdade.
Spencer jogou o jornal no cho e virou-se para a esposa, pegando-a nos braos e a fazendo rir.
        Por Deus, eu a amo, Brianna!
        Spencer?
        Sim?  foi a resposta abafada enquanto ele lhe mordia o lbulo da orelha.
        Lembra-se do Natal? Da casa em Connecticut com Kelly, Colin e o beb Edwin?
Ele apoiou o cotovelo na cama e sorriu.
        Oh, eu me lembro. Perfeitamente.  Comeou a fazer o robe de Brianna escorregar ombro abaixo.  Foi o melhor Natal que j tive  complementou ele com voz 
rouca.
        Bem, parece que teremos uma lembrancinha daquela viagem.
Pegou-lhe a mo e a colocou sob o robe at o abdmen nu, Enquanto voc estava roncando to tranquilo esta manh, eu estava fazendo um teste de gravidez.
Ela simplesmente sorriu.
        Sua maluca! Por que no me acordou?
        Eu queria uns poucos minutos sozinha, s isso.
Spencer beijou-a na testa e a abraou.
Permaneceram deitados por longos momentos, o tempo parecendo ter sido suspenso e ento Brianna sentiu a presso da mo grande e quente intensificar-se sobre seu 
estmago.
        Presumo que esteja feliz.
        Feliz?  ele falou, tocando-lhe os lbios e fitando-a emocionado.  Estou absolutamente deliciado.
Ento os olhos profundamente azuis capturaram os dela e Spencer selou os lbios de Brianna com os seus.

FIM
